A produção artística na lógica dos editais | LUCILA VILELA

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Autorretrato da artista quando jovem, 2020.

A relação entre o artista* e o dinheiro sempre foi uma questão. Enquanto a maioria das pessoas trabalha para ganhar dinheiro, o artista ganha dinheiro para trabalhar. Essa lógica invertida provoca um ruído no sistema capitalista.

O lugar do artista na sociedade é transitório e movente, e se ajusta conforme as circunstâncias sociais e econômicas de cada época. O circuito e o mercado de arte deslizam pelas trajetórias.

No trabalho artístico a relação com o tempo também é outra. Precisa-se de tempo para pensar e produzir; o que, nesse caso, contraria a máxima capitalista. Aqui, tempo não é dinheiro.

Os editais surgiram no Brasil como alternativas para a alta demanda de produção artística. A política de editais foi impulsionada com a gestão cultural do ministro Gilberto Gil (2003-2008). O fomento dos editais, os pontos de cultura, e os incentivos à produção audiovisual foram algumas iniciativas importantes para o estímulo à diversidade cultural do país.

Atualmente, existem editais públicos -federais, estaduais e municipais-, e outros promovidos por instituições privadas. A lógica dos editais funciona como tentativa de concretizar projetos que muitas vezes não saem do papel por falta de financiamento.

Dificilmente, no entanto, sobrevive-se com o apoio de editais. A sobrevivência básica do artista, em geral, vem de outro lugar. Os editais tem um caráter de jogo. O artista se inscreve se adequando a cada norma de inscrição e nem sempre ganha. O que pode produzir um cansaço. Mas apesar de incertos, os editais são fundamentais para a realização de projetos que demandam produção. E devem existir como possibilidade de concretização.

Com a situação de isolamento provocada pela pandemia de 2020, muitos editais emergenciais foram abertos, mas o imediatismo de produções fez com que surgissem algumas críticas: a deglutição crua do momento não facilitava a digestão.

A incerteza fez-se presente. E a adequação do trabalho aos ambientes virtuais tornou visível a necessidade de alfabetização e formação na linguagem digital. O excesso de imagens, opiniões e informações combinados com os desastres de gestão sanitária, política, ambiental e cultural, contribuíram para a angustia coletiva.

Passado quase um ano de adaptação ao isolamento social, algumas estratégias começaram a se configurar: lives, aulas, discussões e encontros virtuais foram ganhando espaço. Muitos editais foram abertos, ainda que com baixo orçamento.

A performance da vida diária abriu espaços possíveis. Os artistas mais uma vez se equilibram. Contudo, a corda continua bamba, a dança continua viva e a máscara ainda cobre o rosto.

 

* refiro-me ao sujeito artista, incluindo todas as diversidades de gênero.