Bio+Grafia = Tensão entre corpo e escrita | SANDRA MEYER

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Escrever sobre um evento é evocar as tensões entre corpo e escrita. Escrever sobre dança altera o próprio acontecimento. Já não é mais aquela dança ou aquela fala que acabamos de presenciar que vamos reter na escrita. Contudo, não se trata de recusarmos a escrever por conta desta transformação incontornável, tampouco por conta de sua pretensa efemeridade (mesmo porque efêmera pode ser a relação e não a obra). É justamente a percepção desta mutabilidade que permite um novo olhar para a relação entre dança e escrita, segundo Peggy Phelan.

Esta é uma questão que Jean-Jacques Noverre (1727-1810) já havia nos alertado em “Lettres sur la danse”, como aponta André Lepecki no texto “Inscribing Dancing”. Ao criticar os sistemas de notação gráfica da coreografia de Thoinot Arbeau (1519-1595), autor de “Orchésographie”, um tratado sobre danças sociais da França Renascentista, e de Raoul Feuillet (1653 – 1709), autor de “Chorégraphie, ou l’art de d’écrire la danse”, Noverre abre a perspectiva de problematizar a presença do corpo, presença esta que escapa à escrita e à codificação a priori do movimento. O que Noverre provoca é o rompimento da simetria histórica até então imposta entre palavra e movimento, ou seja, a coreografia vista literalmente como escrita do movimento, até mesmo antes do bailarino entrar em cena. A presença do corpo não pode ser mais pensada fora de seu desaparecimento.

O tema da mesa “Pesquisa biográfica em dança” alia-se ao problema da escrita e da presença. Esboço aqui impressões sobre um bom encontro, estimulador de potências de existir entre Alejandro Ahmed, Denise Stutz e Lilian Vilela, ocorrido no dia 20 de maio no Auditório CDS/UFSC. A biografia entendida como escrita de si e do outro e que agencia memórias moduláveis em identidades não fixas. O que não tem garantia de sobreviver, mas que atravessa o artista em articulações bio-geo-políticas que incluem o lugar de onde se vive e para onde inexoravelmente sempre se retorna. “O que é dançar em Florianópolis”?, provoca Ahmed.

A biografia na dança para o diretor do Grupo Cena 11 Cia de Dança é feito “vestígio”, uma espécie de “genealogia não narrativa”. Trata-se do que Ahmed nomeou como uma “genealogia da experiência”, do corpo no tempo e no espaço. Um mergulho onde se intensifica o tempo, o envelhecimento, a entropia, feito as longas barbas brancas de Anderson João Gonçalves (1964-2010) num devir-dança. Biografia como “mapa de vestígios que traz a desordem do não pertencimento”, complementa Ahmed. A genealogia, em termos foucaultianos, difere da historia tradicional e da busca pela origem, pois revela processos de subjetivação de um sujeito que não é unitário. Marca a singularidade dos acontecimentos. Cito as palavras de Foucault sobre arquivos e memórias: “pergaminhos embaralhados, riscados, várias vezes reescritos”.

alejandroAlejandro Ahmed em Sobre expectativas e promessas. Foto: Cristiano Prim.

Entra aqui a noção de indecidibilidade entre presença e ausência. A indecidibilidade pode ser entendida como uma forma de resistência aos critérios de verdade ou à validação de um juízo crítico. Para o filósofo Jacques Derrida (1930-2004), não há significante, sendo este apenas um rastro que abre a outros significantes, por sua vez rastros, e assim sucessivamente. Um rastro não será uma presença (essencialista), mas pertencente a rede de sentidos que se desloca, apagamento e reaparecimento num devir. Neste sentido, a presença se atualiza em função de um novo presente, num escoamento através do qual o passado apenas se atualiza em função de um outro presente que não aquele que ele foi, e um futuro provisório enunciado num devir. O corpo próprio da dança a enuncia não necessariamente como movimento, mas como tempo.

“A minha história está no meu corpo, certas coisas ficaram como potência”. Esta fala performativa de Denise Stutz traduz experiências intensas em importantes coletivos de dança como o Grupo Corpo, a Lia Rodrigues Companhia de Danças e o Coletivo Improviso, dentre outras tantas imersões. Exercícios para abrir o corpo e sua potência de inventar e re-existir. A invenção (invenire = encontrar relíquias ou restos arqueológicos) não é iluminação súbita, instantaneidade, tampouco espontaneidade, como salienta Virgínia Kastrup; implica em duração, trabalho com restos, prática de tateio, de experimentação. Se faz com a memória. Diferente da criatividade a invenção não seria apenas solução de problemas, mas invenção de problemas. Envolve a experiência da problematização. Não é o que se espera de toda dança?

denise-stutzDenise Stutz em Finita. Foto: Cristiano Prim.

As estratégias de ação de Denise Stutz e de Alejandro Ahmed, em suas especificidades, se mantém no sentido de abertura para o mundo ao se permitirem sair de lugares já previamente construídos. A presença dá-se neste “mistério”, como Stutz sugere, neste dispor-se ao tempo, ao acontecimento, sendo desvendado em cada situação dada, complementa Ahmed. Não uma presença a ser destacada ou perenizada. Através de uma montagem dos relatos de memória e de esquecimento de Denise Stutz a pesquisadora Lilian Vilela empreendeu uma bela jornada nestas tensões entre corpo e escrita, tornando mais visível o corpo-arquivo da artista e seus percursos, em seu livro “Uma vida em dança: movimentos e percursos de Denise Stutz” (Annablume, 2013).

Pensemos então a escrita como experiência, sobretudo.

1 Anderson João Gonçalves (Curitiba,1964 -Florianópolis, 2010) was a dancer, choreographer and costume designer. He was one of the founders of Cena11. According to Alejandro Ahmed, when he exposed his long white beardon the scene, he brought to Cena 11 the possibility of to approach issues about time and ageing in dance.

* Sandra Meyer is Professor of the Postgraduate Program- Master and PhD inTheater, Centro de Artes, Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.

 

Bibliography:

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 2001.

Hermes, Ana   L. F.. Para além do clausto, um pensamento da diferença: Jacques Derrida e a desconstrução da metafísica da presença. Revista Sapere Aude. Belo Horizonte, v.4 – n.7, p.224-244. 1o sem. 2013.

KASTRUP, Virginia. TEDESCO, Silvia. PASSOS, Eduardo (Org.). Políticas da cognição. Porto Alegre: Editora Sulina, 2008.

LEPECKI, André (Org.) Of the presence of the body. Essays on dance and Performance Theory. Middlentown: Wesleyan University Press, 2004.

Phelan, Peggy. Unmarked: the politics of performance. New York: Routledge, 2006.

VILELA, Lilian.Uma vida em dança: movimentos e percursos de Denise Stutz. São Paulo: Annablume, 2013.

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