O Fim do Cubo Branco e o Surgimento da Cromoexperiência | GAUDÊNCIO FIDELIS

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O Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) abriu no dia 06 de dezembro de 2012 a maior exposição de sua história, ocupando todas as galerias da instituição. Cromomuseu: Pós- Pictorialismo no Contexto Museológico é uma exposição que introduz a cor como elemento problematizador do processo curatorial, conduzindo a um desdobramento epistemológico do espaço (uma nova epistemologia do espaço por assim dizer), com o objetivo de ampliar o campo do conhecimento ao introduzir a interferência e a perturbação da cor no processo interpretativo das obras.

Os museus devem apresentar modelos de organização curatorial, propondo novas estratégias de exibição que sejam inovadoras e que produzam conhecimento original. A exposição Cromomuseu representa uma investida considerável tanto no território museográfico de exposições quanto no universo conceitual e formal das obras. Se no modelo chamado labiríntico empregado pelo MARGS na exposição Labirintos da Iconografia, em 2011, o espaço físico era determinante para percorrer as obras e desenvolver um raciocínio interpretativo a partir de seus desdobramentos, no modelo cromolabiríntico empregado nessa exposição a cor passa a problematizá-las com vistas a introduzir um movimento visual e uma contaminação do olhar pela cor a cada momento que o visitante vislumbra uma obra na exposição, o que podemos chamar de cromoprobabilidade. Diversas questões complementares sobre a cor são tratadas ao longo dos oito segmentos em que a exposição é dividida: Cromoteca: a experiência, Cromofobia: a cultura, Cromocor: a política, Cromocubo: a ideologia, Cromoforma: o espaço, Cromodrama: a expressão, Cromofagia: a absorção, e Cromonomia: a ausência.

Entretanto, vale dizer, não é seu objetivo criar um ambiente intimista, aconchegante, agradável ou marcado por qualquer particularidade dessa ordem, tão comum em exposições que lançam mão do colorido das paredes visando torná- las mais “atrativas”. Ao contrário, nesse caso, a intenção é criar um considerável desconforto para o visitante através da excessiva impregnação da cor, que pode parecer sedutora em um primeiro momento, mas que pretende problematizar consideravelmente a localização conceitual das obras no espaço de exposições.

Cromomuseu pretende, assim, expandir os limites do espaço conceitual produzido pelo design de exposições e arregimentar uma considerável parcela de problemas que foram articulados pelo uso de uma paleta de cores com várias dezenas de tonalidades. Ao redimensionar o espaço por meio da espacialização da cor (em contraposição ou complementaridade à cor das obras), a exposição reestrutura a condição espacial de sua realidade material em uma perspectiva curatorial de teor experimental. Essa dimensão espacial de estatura colorística pode ser creditada a um patamar de impregnação e contaminação do espaço através da cor, atribuída ao campo físico da exposição.

Cromomuseu declara temporariamente o fim do cubo branco ao abandonar o espaço neutro e retornar à interferência intermitente do mundo externo em suas salas de exposições por meio da cor. Com paredes saturadas, a exposição produz uma densidade de cor raramente experienciada no espaço museológico, testando os limites das obras em ultrapassar suas premissas estéticas e conceituais em meio a um considerável ruído cultural representado pela diversidade de cores aplicada ao ambiente de exposições. Substituída aqui pela cor, a moldura cultural que cerca a arte, mostra-se um mecanismo problematizador que se configura como sendo consideravelmente intrusiva. A exposição será realizada exclusivamente com obras do acervo do MARGS de meados do século 19 até a contemporaneidade. Dessa forma, existe uma continuidade ao extenso programa de exposições desenvolvido nesta gestão, cujo objetivo principal é privilegiar a visibilidade, a conservação e a produção de conhecimento sobre a coleção do museu, que já ultrapassa a marca de 3.000 obras. Com 223 obras de 147 artistas, Cromomuseu é a mais ambiciosa exposição que o MARGS já realizou em toda a sua história, tanto em termos conceituais quanto em termos numéricos, caracterizando-se como um projeto curatorial de extrema relevância para a reavaliação dos princípios canônicos que regem a produção artística, a sua circulação e a produção de conhecimento original sobre esse corpo de obras em exibição.

* Gaudêncio Fidelis é Doutor em História da Arte e Diretor do MARGS.

Leia também a entrevista com Gaudêncio Fidelis: http://interartive.org/2012/12/entrevista-gaudencio/

Websites:

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