Incerteza em modos organizativos em dança | ELKE SIEDLER

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 Elke1-reduElke Siedler. Performance: Um banho de água fria, 2013. Foto: Cristiano Prim

Na diversidade dos modos de se compor configurações, identifica-se processos de indeterminismos durante a ocorrência de todos os tipos de dança. O presente artigo se presta a tecer reflexões acerca das imprevisibilidades e de possíveis implicações.

Durante a apresentação de uma dança não há como garantir que tudo ocorra absolutamente como o previsto, não há possibilidade de predição certeira do futuro, uma vez que o corpo que dança opera num devir. Isto é, o corpo participa dos processos coevolutivos, se relaciona dinamicamente com o ambiente numa interação de codependências e coadaptações, o que impede de realizar ações causais e determinísticas.  Durante uma apresentação de dança, há transformações (sutis ou não sutis) das relações entre corpo e ambiente: as conexões dependem das circunstancias do momento. Pode-se pensar que existe probabilidade de ocorrências e, também, emergências ao invés de certezas absolutas no que concerne aos modos como o corpo irá se relacionar no espaço-tempo.

Configurações de dança são ações corporais que se apresentam como conjuntos de informações organizadas como dança e sempre passíveis de mudanças, submetidas a incerteza, imprevisibilidades, no decorrer de sua apresentação. Imprevisibilidades representam problemas para uma configuração uma vez que pode colocar em risco a coerência[1] da dança.

O corpo ao lidar com as imprevisibilidades pode efetivar com sucesso soluções aos problemas que se instauram no decorrer de uma apresentação. A capacidade de se reorganizar, por meio de tomadas de decisão pertinentes, enuncia a permanência da logica organizacional da configuração. Pode-se pensar que soluções de problemas imediatos são estratégias adaptativas do corpo frente a situações não previstas e que podem complexificar os modos de se relacionar no espaço-tempo.

elke2-reduElke Siedler. Performance: Um banho de água fria, 2013.
Foto: Cristiano Prim

Reapresentações possíveis.   

Pode-se pensar na dança enquanto diferenciadas maneiras de se organizar as informações que as constituem e que necessariamente é  guiada por um conjunto de regras que variam de acordo com as possibilidades e propósitos específicos. O presente artigo estabelece reflexões acerca das incertezas que acometem danças que possuem possibilidade e/ou impossibilidade de reprodução das regras que as compõe.

Algumas configurações podem ser reapresentadas, pois sua composição permite o exercício de outras execuções baseadas em anteriores. Pode-se pensar que há composições feitas de acordo com regras que podem pertencer ou não a modelos específicos de dança que permitem reapresentações[2].

Modelos de dança se caracterizam por códigos e regras específicas, própria de um tipo particular de se fazer dança. Existem qualidades que possibilitam nomear uma dança de balé clássico de repertório, Neo-clássico, Dança Moderna de Martha Graham, Sapateado Irlandês, Samba de Gafieira, etc. Modelos de dança são compostos por determinados padrões que podem ser desde modos específicos de se organizar os movimentos e relacionamentos no espaço-tempo até a escolha de determinadas informações para compor a estrutura de uma configuração.

Danças compostas de modo que haja uma especificidade de movimentos proveniente de um modelo especifico, podem se configurar pela junção de passos mediante regras pertencentes a uma técnica especifica que viram um modelo que se escolheu trabalhar. Mas não é um único modo, um único exemplo, pois não é característica apenas dos modelos mais estáveis à organização de passos, uma vez que o modo de feitura de dança onde há junção de passos não necessariamente está atrelada a uma técnica específica, mas um entendimento de se fazer dança.

Os modelos podem apresentar uma maior estabilidade ao longo do tempo. Entretanto, fazem partem dos processos evolutivos e apresentam transformações graduais como estratégia de adaptação às modificações do ambiente.  Os modelos mais estáveis de dança evoluem uma vez que o corpo não é imutável, transforma seus modos de relacionamento em codependência com o ambiente. Na replicação das regras que definem qualquer modelo específico de dança podem ocorrer erros de cópia. Perdas de informações ocorrem nos processos de replicação.

“Não se pode esquecer que há perda de fidelidade em qualquer operação que transfere de um lugar para o outro uma informação. Assim, de um existente no mundo para um existente no cérebro, ocorrerá alguma degradação de fidelidade.”[3]

Danças, pautadas em regras especificas, tendem a virar modelos quando há uma rede de replicações dos padrões que a caracterizam. Entretanto, fazem parte da ação de replicação de informações também as transformações, uma vez que perdas ocorrem nos processos relacionais, ainda mais quando se trata de ideias culturais. Não há garantias de que ocorra fidelidade de cópias das informações que constituem modos específicos de se fazer dança, pois a incerteza/imprevisibilidade também está presente no processo de replicação das regras de modos particulares de feitura de danças.

No processo de trocas informacionais o corpo tem a capacidade de replicar, via memes, informações culturais[4]. De acordo com Dawkins,

“Tal qual os genes se propagam no pool gênico saltando de corpo para corpo através dos espermatozóides ou dos óvulos, os memes também se propagam no pool de memes saltando de cérebro para cérebro através de um processo que, num sentido amplo, pode ser chamado de imitação. Se um cientista ouve ou lê sobre uma determinada ideia, transmite-a aos seus colegas e alunos. Ele a menciona nos seus artigos e nas suas palestras. Se a ideia pegar, pode-se dizer que ela propaga a si mesma, espalhando-se de cérebro para cérebro.”[5]

É por imitação que os corpos replicam memes e sua larga difusão dependerá do grau de aceitação de uma idéia em determinado ambiente. A durabilidade de uma idéia no pool de memes[6] dependerá da fidelidade de cópias durante o ato de replicação. Entretanto, podem ocorrer pequenos erros durante o processo de replicação e, sendo assim, ocorrerão variações internas nas informações constituintes dos memes, modificando-os.

Uma unidade cultural, chamada de meme, é passada adiante por meio de imitação, isto é, “[…] a imitação, num sentido amplo, é o processo pelo qual os memes podem se replicar.”[7] Os memes não são replicadores de alta fidelidade já que cada vez que uma ideia é replicada provavelmente ocorre uma modificação em algum grau, devido, também, às mutações relativas a tradução das ideias. Não existem, portanto, certezas de que outros corpos entenderão da mesma maneira uma ideia que fora replicada por outro corpo.

A dança é ação do corpo. Nas ações do corpo existe produção de padrões regulares ao longo do tempo. Repetições de padrões, que ocorrem na continuidade dos processos evolutivos, podem sofrer perdas de informação quando replicados e o corpo poderá enunciar estes padrões com variações. Isto significa que a dança lida com variações, mesmo que às vezes mínimas, de suas informações constituintes.

“Padrões são sistemas informacionais com estruturas e funções próprias e apesar de participarem do jogo das transformações mantêm-se em baixo grau de dissipação; uma estabilidade ocasionada pela repetição de seus códigos e eficiência de seus acordos.”[8]

Pode-se pensar que, em modelos mais estáveis de dança, os erros de cópia durante o processo de replicação das informações que as caracterizam, podem produzir transformações nas regras que definem suas específicas maneiras compositivas. E, também, percebe-se a possibilidade de transformação destes tipos de configurações pelos ajustes do corpo diante do imprevisível, que pode acometer apresentações de dança, uma vez que o corpo lida o tempo todo com as informações constituídas na presentidade.

Ajustes do corpo diante dos problemas gerados por novas informações, que podem “aparecer” no decorrer de uma apresentação, por meio das imprevisibilidades, são novas[9] maneiras do corpo estabelecer conexões coerentes numa dança. Pode-se pensar que estas novas maneiras podem passar a fazer parte dos modelos mais estáveis se forem replicadas de modo a obter uma aceitação no ambiente em que está inserida, transformando as regras que caracterizam um modo específico de dança. A incerteza, neste caso, pode ser uma condição de permanência de modelos mais estáveis de dança uma vez que o corpo se adapta, modifica sua maneira de se relacionar, transformando e produzindo novidades inclusive no que concerne às regras compositivas e aos padrões de movimento/relacionamento no espaço-tempo.

 elke3-reduElke Siedler. Performance: Um banho de água fria, 2013.
Foto: Cristiano Prim

Configurações compostas na e pela incerteza.

Há danças que se organizam de forma diferente: são construídas mediante princípios organizativos desenvolvidos pelos seus compositores cujos propósitos não incorrem na tentativa de reapresentá-las. Há diversidade de possibilidades de se conceber uma configuração cuja premissa é a de se organizar durante sua execução, onde há improvisação de movimentos e/ou de relações no espaço-tempo. Há composições onde a improvisação ocorre mediante regras e/ou propostas cênicas estipuladas anteriormente à apresentação, assim como há outras configurações cujas regras são constituídas (vão se configurando e transformando) no momento da feitura da dança. São regras que ocorrem no momento da execução como dispositivos de organização e composição.  Pode-se pensar que há, também, configurações onde há um imbricamento de regras estabelecidas a priori e regras que se constituem no momento da apresentação da dança.  São danças que lidam com a incerteza como estratégia criativa de composição.

Nas danças que lidam com a incerteza como ação criativa de composição o corpo trabalha com a possibilidade de agregar novas informações, durante a apresentação, como estratégia de construção da configuração. Há uma probabilidade maior, então, da ocorrência de imprevisibilidades, neste tipo de dança, uma vez que se alargam as possibilidades conectivas do corpo ao longo da execução da dança.

Neste sentido a coerência (a lógica organizacional da dança) é auto-estabelecida no decorrer da improvisação em cena tanto naquelas danças cujas regras são planejadas anteriormente a apresentação[10], quanto naquelas cujas regras são compostas no momento da execução da dança, ou, ainda, naquelas compostas pelo imbricamento entre regras planejadas e criadas durante a apresentação.

O corpo, quando dança compondo informações que se organizam durante sua apresentação, também está sujeito a algum tipo de imprevisibilidade que pode resultar em risco à coerência da configuração. Dificuldades em executar movimentos automatizados, relações que não se desenvolvem mediante as expectativas do dançarino no instante da improvisação, problemas na parte técnica do local da apresentação, são entendidas como informações não previstas durante a execução da dança, entre tantas outras. As imprevisibilidades são entendidas, resumidamente, como informações novas que ultrapassam o repertório conhecido do bailarino no que concerne a modos familiares de se relacionar com o ambiente.

Em danças cuja feitura ocorre (total ou parcialmente) no instante de sua execução há também um “aspecto” de determinismo.

“No caso da improvisação […] o determinismo emerge a partir de vários fatores, tais como: condições anatomofisiológicas do corpo que dança, gramáticas(s) já existentes no corpo, estilo pessoal do dançarino, e hábitos, inclusive os criados pela repetição da técnica de improvisação.”[11]

Neste sentido, as conexões estabelecidas na improvisação, entre as informações que vão se constituindo e se transformando ao longo da execução, também não escapam a possibilidade de haver imprevisibilidades já que situações que “fogem” das regularidades do corpo podem gerar incertezas no modo como o corpo irá efetivar ajustes.

O corpo que dança terá que se reorganizar frente às informações não previstas já que não se pode descartar a possibilidade de uma informação (uma ocorrência) prejudicar a lógica da configuração de modo que a incapacidade de reorganização se apresente como falha, ao invés de uma solução de complexidade. Os ajustes podem enunciar soluções de criatividade que não rompem com a coerência da configuração, pelo contrário, transformam-na, geram complexidade e a alimentam. A incerteza permite a produção de novidade nos processos complexos da dança.



[1] “Acontecimentos, ideias que constroem algum tipo de lógica própria. Não se encontra vinculado ao sentido de harmonia. Coerência encontra-se também embasada no conceito de organização da Teoria Geral dos Sistemas.” (BITTENCOURT MACHADO, 2007, p. 57).

[2] Danças que podem ser reproduzidas não são necessariamente as que se restringem a produção de cópias de movimentos pré-designados. Mesmo em propostas organizadas de modo que haja improvisação em cena, pode haver reprodução de regras.

[3] MACHADO, Adriana Bittencourt.  O Papel das Imagens nos Processos de Comunicação: ações do corpo, ações no corpo. São Paulo, 2007, Tese de doutorado – Programa de Comunicação e Semiótica, Pontifícia Universidade Católica, p.4

[4] Richard Dawkins cunhou o termo meme numa analogia ao entendimento de gene (molécula de DNA). Enquanto este representa a unidade mínima replicadora de vida, o meme é a unidade replicadora de informação cultural humana e faz parte dos processos co-evolutivos. Richard Dawkins é etólogo, biólogo evolucionista e no seu livro O Gene Egoísta (1976) nos apresenta o termo meme como “unidade de replicação cultural.”

[5] DAWKINS, Richard. O Gene Egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.330

[6] Pool de memes é um termo utilizado por Dawkins numa analogia ao pool de genes. Assim, pool de memes diz respeito a uma unidade cultural presente num conjunto de pessoas em um ambiente específico.

[7] DAWKINS, Ibdem, p.332

[8] MACHADO, Adriana Bittencourt. In Revista Científica. Dispositivos da Comunicação: as imagens como proposições do corpo, v.4, n.2 p.1-16. Curitiba: FAP, jul./dez. 2009,  p.75

[9] O novo não é algo necessariamente desconhecido ou novidade, mas imprevisibilidade”.

[10] Mas que não são regras determinísticas, mas sim, abertas as transformações.

[11] MARTINS, 2002, p. 41

* Elke Siedler é Doutoranda em Comunicação e Semiótica na PUC/SP. Bolsista da CAPES. Mestre em Dança e Especialista em Estudos Contemporâneos em Dança pela UFBA. Diretora e dançarina da Siedler Cia de Dança. Coordenadora Artística da Célula Dança e Sala Célula, em Florianópolis/SC