Kinetos: Georges Méliès em primeiro plano | LUCILA VILELA

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Air – Le Voyage Dans La Lune from Alix on Vimeo.

Uma descoberta no arquivo da Filmoteca da Catalunha, em 1993, fez ressurgir a figura de Georges Méliès, um dos pioneiros nas experiências cinematográficas, considerado o “pai” da ficção científica. A cópia original de Viagem à Lua, de 1902, colorida a mão, foi encontrada em estado precário e submetida a um longo processo de recuperação. Até então, acreditava-se que a única versão colorida do filme estava perdida. Com grande importância para a história do cinema, essa complexa restauração foi finalizada no ano de 2010 e recuperou 13.375 fotogramas, contando com o trabalho de especialistas junto com Groupama Gan Foudation for Cinema, Technicolor Foundation for Cinema Heritage e Lobster Films. Na seqüência, o filme mudo de 16 minutos ganhou uma trilha sonora composta pelo duo francês de música eletrônica AIR (Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel) e teve sua estréia no Festival de Cannes de 2011, mesmo ano em que foi lançado o filme A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, baseado no livro de Brian Selznick (2007), cuja trama gira em torno de um dos personagens que é justamente Georges Méliès.

Também em 1996, o grupo The Smashing Pumpkins lançava o clip da música Tonight Tonight fazendo referência direta ao filme Viagem à Lua. Dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris, o clip buscou a estética do século XIX usando cenários e figurinos teatrais e imitando os efeitos da época. Além da trilha, o duo AIR desenvolveu o álbum Le Voyage Dans La Lune dedicado inteiramente ao filme. Os temas, na maioria instrumentais, possuem uma atmosfera climática incorporando alguns sons clássicos da música eletrônica. De fato, o filme de Georges Méliès traz uma curiosa experiência estética capaz de estimular novas criações. Inspirado nas novelas Da Terra à Lua, de Julio Verne (1865) e Os primeiros homens na Lua, de H. G. Wells (1901), Viagem à Lua transporta o imaginário e a ambição humana de explorar a lua, o que ocorreu de fato quase 70 anos depois. Em 20 de julho de 1969, Neil Armstrong, comandante da missão Apollo 11, foi o primeiro homem a pisar na lua, mesma época em que Barbarella ocupava as telas de cinema e David Bowie lançava o álbum Space Oddity.

Jean-Benoît Dunckel e Nicolas Godin já mostravam interesse pelo tema espacial no primeiro álbum do AIR: Moon Safari,  de 1998. Na trilha de Viagem à Lua, o duo explora essa aventura imagética criando um ambiente sonoro que intensifica o humor e o entusiasmo presentes na narrativa de Méliès . Captando uma certa inocência e intensa presença teatral, a trilha produz um perfeito diálogo combinando a música do século XXI com as imagens do século XIX. O tema contribui para isso: lançar-se ao espaço rende vôos à imaginação. Um território onde tudo é possível. Assim, truques de mágica aliados à descobertas cientificas estiveram presentes tanto no imaginário dos cineastas quanto na própria produção de efeitos especiais. É o caso, do mesmo modo, do filme Viagem à Marte, de Thomas Edison, produzido com seu Kinetoscópio em 1910. O filme em branco e preto tem 4 minutos de duração e conta a história de um professor que descobre uma mistura capaz de inverter a gravidade. E ao cair acidentalmente o personagem levita viajando até Marte.

Georges Méliès  era mágico de profissão e encontrou no cinema o lugar perfeito para criar ilusões. Foi ele o inventor da máscara e da contramáscara, assim como dos esbatidos de abertura e de fecho para desenvolver um efeito de transição luminosa entre uma cena e outra. Adaptou ao cinema a técnica da sobreimpressão, um processo utilizado na fotografia da época, possibilitando aparições e desaparições de personagens fantasmas, efeito que conseguiu obter com o controle da manivela[1]. Para realizar suas produções, construiu um estúdio totalmente envidraçado, espécie de estufa, que deixava entrar grande quantidade de luz solar. Méliès  era diretor, roteirista, ator, produtor, cenógrafo, figurinista e fotógrafo de seus filmes, mas sua empresa Star Filmes o levou à falência e muitos de seus negativos acabaram sendo reciclados e fundidos em palmilhas de sapataria. No entanto, chegou a produzir cerca de 500 filmes e durante muito tempo suas criações fantásticas e teatrais obtiveram grande sucesso.[2]

A biografia de Georges Méliès  apareceu recentemente no filme A Invenção de Hugo Cabret, (Hugo, Estados Unidos, 2011), de Martin Scorsese. Abordada no livro que rendeu o filme, a pesquisa da vida do personagem parece fazer jus ao que até hoje sabemos sobre ele. A recuperação da memória de Viagem à Lua ocupa um papel importante na narrativa: é através dessa imagem que o protagonista descobre o passado do personagem Papa Georges, que irá se revelar como Georges Méliès . O filme, além de resgatar a figura do cineasta, traz vários trechos de filmes da época, constituindo uma verdadeira aula de arte cinematográfica. Na cena em que os personagens têm acesso a um livro de história do cinema, as imagens que eles encontram se tornam os próprios filmes dando seqüência a um breve relato das primeiras experiências cinematográficas passando por O Garoto (1921), O Homem mosca (1923), A General (1927), entre outros. Umas das mais elaboradas cenas, foi criada a partir de uma fotografia de 1895 que retrata o dia em que a locomotiva Granville-Paris Express descarrilou atravessando e saltando pra fora da estação ficando apoiada somente na ponta dianteira. Scorsese quando recria a cena a partir dessa imagem procura trazer quase a mesma sensação que, naquela época, o público teve ao assistir pela  primeira vez o filme A chegada do trem na estação (1896), dos irmãos Lumière. Conta-se que nessa ocasião a imagem cinematográfica causou espanto no público que temeu que o trem saísse para fora da tela. Na cena de Hugo, o diretor busca essa mesma impressão, mas com a tecnologia 3D que permite a simulação cada vez mais próxima da realidade.

Na época das primeiras experiências cinematográficas, a simples continuidade das imagens provocava a sensação de estar dentro da narrativa aturdindo o público com efeitos visuais. Hoje a tecnologia 3D procura produzir a  intensamente a mesma proposta de imersão na tela capaz de surpreender o espectador. Dessa forma, pode-se entender o paralelo criado por Scorsese ao optar pela utilização do 3D. Na breve introdução do livro, o autor dá a dica: “antes de você virar a página, quero que você se imagine sentado no escuro, como num filme”[3]. Ampliando o campo de visão e captando a atmosfera mágica do cinema, o filme trata a questão do tempo através dos relógios, peça chave da narrativa. O protagonista, Hugo, responsável pelo funcionamento dos relógios da estação, observava através dos números, as cenas acontecerem como na tela de cinema. A cada dia, novas narrativas se estabeleciam. Às vezes, entrava em cena, mas sua presença era invisível, perambulava na estação como se fosse um fantasma. Atrás dos relógios, o tempo era outro, quase congelado, vivo por uma memória afetiva. Arrastando vidas e dissolvendo histórias, o tempo era seu maior aliado e também seu maior inimigo.

Era um autômato seu melhor companheiro. Na Paris no século XIX, essas figuras mecânicas, feitas de um complexo mecanismo de relógio, chegavam a executar ações como nadar, dançar, escrever e até mesmo jogar xadrez. No livro Edison’s Eve: A Magical Quest for Mechanical Life, de Gaby Word, que inspirou  Brian Selznick a escrever A invenção de Hugo Cabret, conta que Georges Méliès  ganhou uma coleção de autômatos, mas não teve condições de manter doando tudo para um museu que tampouco foi capaz de preservar. No filme, assim como no livro, o autômato é a figura central e para funcionar era preciso da chave que ativava seu coração. Uma boneca berlinense conta: “Sempre fui, em meio às pessoas, a única boneca com coração.”[4] E é o coração que afinal acaba sendo a chave de todos os personagens. Em uma alusão ao autômato, o guarda que arrasta sua perna mecânica demonstra seu lado humano com a aparição de um romance. Georges Méliès , por sua vez, aparece como uma peça abandonada, sem conserto, mas que volta a funcionar quando a luz de seu coração –o cinema– é novamente acesa.  A relação do sistema mecânico com o corpo faz surgir pequenas mudanças nas repetidas ações. Hugo Cabret enxerga o ritmo do tempo “lá onde se vêem as horas nos olhos, e não no relógio”[5]

Georges Méliès  assim volta às telas de cinema em pleno século XXI. O tempo que estava deteriorando a única cópia colorida de Viagem à lua, virou do avesso resgatando uma das imagens mais valiosas da história do cinema. O clima atmosférico de AIR, trouxe o som imaginário que movia os primeiros personagens  de uma ficção científica. Brian Selznick projetou nos olhos de uma criança o entusiasmo pelo cinema e Martin Scorsese, numa aventura de imagem e sonho, prestou uma homenagem às origens da linguagem cinematográfica. A cada quadro, um passo, na recuperação de uma história -kinetos (kινητός)- em constante movimento.


[1] ACTO 4. sobre fantasmas. Santa Cruz de Tenerife, 2008, p. 147

[2] Cfr. BRISELANCE, Marie-France e MORIN, Jean Claude. Gramática do cinema. Lisboa: texto & Grafia, p. 45

[3] SELZNICK, Brian. A invenção de Hugo Cabret. São Paulo: Edições SM, 2007.

[4] Amalie Winter, Memoiren einer Berliner Puppe für inder von 5 bis 10 Jahren und für deren Mütter, Leipzig, 1852, p.93 in BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: Ed. UFMG, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007, p.733

[5] Franz Dingelstedt, Ein Roman, cit. Em Adolf  Strodtmann, Dichterprofile, vol.I, Stuttgart, 1879, p.111 v in BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: Ed. UFMG, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007, p.733