Há algo nesta imagem que está além do documental. É uma imagem que, no meio da proliferação de imagens disparadas, nos faz parar. É certamente, não apenas pela situação (o encontro é devastador, por si) mas também pelo inusitado da própria cena – o recorte, as expressões, as cores (algo que Roland Barthes chamaria talvez de multiplicação indevida dos punctuns) - é a imagem que mais me impressionou – ou que mais me solicitou, pela força, a fixar os olhos e ver – nos últimos dias.
Trata-se, diz a legenda, de um encontro entre Berlusconi, Barack Obama e sua esposa, Michelle Obama – encontro que acontece algum tempo depois de Berlusconi ter dito que Obama é “jovem, bonito e bronzeado“, por exemplo. Curiosamente, na imagem – e toda farsa se inicia então – Berlusconi é o único que está à vontade, encenando a si próprio com rara precisão naturalista; ou falsa precisão naturalista, pois a natureza já está aqui fora do jogo. Michelle também tenta encenar, mas não sabe: sua postura se localiza em um hiato abissal entre naturalidade e constrangimento – falta cinismo. Obama, então – pela primeira vez depois de tanta exposição, salvo engano – perde a pose de maior presidente do mundo (ou seja, a posição encomendada por todos) para torna-se humano outra vez, demasiado humano: a expressão de seu rosto apenas explicita uma leve tensão de seu corpo, rijo, imóvel; corre sangue em suas veias. O que pensam afinal os personagens deste pequeno teatro?
Ficamos na superfície. Apesar de todas as diferenças possíveis, há algo que une Obama e Berlusconi, algo está além da semelhança de seus ternos – é possível notar, por outro lado, que a gravata com bolinhas de Berlusconi é levemente mais extravagante do que a lisura discretíssima da gravata de Obama. Michelle novamente é o hiato entre as duas figuras, uma espécie de hífen, um corpo solicitado ou impelido por forças opostas – seu vestido branco, seu colar e principalmente o gesto de dar as mãos ao vilão, provavelmente um gesto que quer indicar o começo provisório de uma improvável cordialidade, oferecem um contraste poderoso a todo o azul masculino, curiosamente reiterado pelo sobre-tom do fundo (figura e fundo, então, formam uma casualíssima – ou nada aleatória? – composição). Parece um ensaio; não é.
É Berlusconi, no entanto, a meu ver, o grande personagem desta foto. É em direção a ele que todos os olhares se concentram. O olho que vê esta imagem é o próprio olho do mundo, o Grande Olho que está em todos os lugares – situação incomum para os grandes encontros entre líderes modernos, por exemplo, quando a internet ainda não existia. Olhamos a foto e, dentro de um instante, de imediato, somos conduzidos à figura de Berlusconi através dos olhos de Obama e Michelle mesmo (espécie de miras, bélicas, potentes) – dois olhares que, de qualquer modo, mimetizam dois modos possíveis de olhar para Berlusconi, dentre outros: o asco ou o constrangimento mesmo (há aqueles que ainda conseguem olhar com alguma graça, como se Berlusconi fosse um tio bonachão). A pose de Berlusconi afinal chama para si todas as contradições, tornando Obama e Michelle – mais ainda o Obama, já que o presidente americano sequer é percebido na superfície daquela ficção – apenas personagens secundários na cena.
De fato, Berlusconi tem os olhos fixos em Michelle Obama. A linha de seu olhar é perversa e é poderosa e atravessa todo o quadro. Berlusconi olha não para o rosto de Michelle – quem dirá que olha nos olhos? – mas para baixo. Michelle lhe dá uma das mãos – não há algo de masculino em seu gesto? – mas Berluconi, ao abrir os braços, expressando algo como uma falsa familiaridade, parece querer colocá-la em uma posição desconforável de puro objeto. Depois, apreendemos o sorriso de Michelle apenas de maneira muito parcial – o ângulo não nos permite olhar sua boca e nem seus olhos, mas apenas alguns traços de seu perfil, o que nos impede de captar possíveis nuanças de sua expressão. O que pensa Berlusconi neste momento é ao mesmo tempo, mas não sem paradoxo, explícito e secreto. É o que nos diz Didi-Huberman sobre a imagem, afinal: somos invadidos por uma sensação paradoxal de contemplação e repulsa. A imagem do encontro é simplesmente uma proliferação incontrolável de não-ditos. Berlusconi nos olha.
De qualquer modo, e está nisso talvez o mais importante, no próximo instante, qualquer coisa pode acontecer ali. Há algo que não cessa de se movimentar na imagem. A habilidade do fotógrafo, afinal – ou sua sorte, pouco importa – está em captar um momento de absoluto limite ou de absurdo. O instante que promete a passagem da cultura à barbárie é um só – e a expectativa se contorce inquieta bem diante dos nossos olhos. De qualquer modo, há um fio muito fino que ainda mantém a ordem (quase) intacta: suspensa, vazia – talvez justamente “a diplomacia internacional / a boa vizinhança / e outras tantas”, diria Tom Zé. Outras tantas.


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