español

Man Ray, Black and White, 1926
1,
Há um momento do sono – quando já estamos com os olhos fechados, em silêncio, mas ainda no limiar de um estado lúcido – há um exato momento em que a imagem de repente deriva. Então só há tempo para pensar – o último enunciado, talvez: agora enfim adormeço. Neste momento perdemos o controle de nossa memória: as imagens passam como se diante dos nossos olhos, em torno – dentro – e nada podemos fazer contra isso: nenhuma narrativa se retém ou se organiza. É um momento em que tudo se torna suspenso, vago e imprevisível. É assim o começo de uma escrita.
2,
As primeiras páginas – as primeiras linhas de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, são assim intermináveis. O escritor lança mão de todos os recursos possíveis para alongar a sintaxe – sobretudo ponto e vírgula. O narrador tem sono – dorme, oscila. A escrita aos poucos perde o vínculo com os objetos que estão em sua volta, perde referências estáveis: primeira pessoa se confunde com a terceira, passado com presente, ruídos com memória. O cenário inteiro então passa a adormecer – “(…) o sono em que estavam mergulhados os móveis, o quarto, aquele todo do qual eu não era mais que uma parte mínima e em cuja insensibilidade logo tornava a integrar-me”. E em outro momento: “Depois começava a parecer-me inteligível”. Tudo gira: se suspende. Por vezes o narrador abre os olhos e tenta retomar o fio das coisas, o tempo; inútil. Qualquer imagem por sua vez aparece na memória como se fosse velada, imóvel. Neste momento o narrador não reconhece nem a si próprio – e nem tempo, espaço, corpo, nada. A escrita é então um cansaço.
3,
Se a escrita é mesmo o resultado de um enfrentamento, então deve ter também o ritmo e a força de um cansaço – portanto, penso também em um limite: no lento. Para Roland Barthes, o sono – e não o sonho, que nos insere no simbólico e dá uma narrativa (ainda que seja uma narrativa delirante) ao vazio – o sono é o neutro. Em outras palavras: o sono engana o paradigma, não produz nenhuma forma: não afirma. Barthes chega a dizer então de uma utopia do sono (que pode ser uma utopia do silêncio e até mesmo do amor) – ou seja: o sono enquanto gasto incondicional, dispêndio de tempo, indiferença, torpor, pura doação. Nada se retém, portanto: nada se estabiliza mais.
4,
Há uma fotografia de Man Ray, Preto e branco (1926), em que uma mulher aparece com seu rosto sobre a mesa: os olhos fechados (parece que dorme, mas não) – e segura uma máscara africana. Leio esta imagem como a encenação delicada do limiar de um sono: a máscara como se fosse uma imagem ausente. O título por sua vez marca a duplicidade de um imaginário ou a passagem de um estado a outro. O sono interior é visível assim pela superfície deste segundo rosto: mágico.
5,
No documentário de Bebeto Arantes sobre João Cabral de Melo Neto, feito já no fim de sua vida, o poeta justifica sua aparente falta de interesse na música com o seguinte depoimento – e tudo isto é dito com muitas pausas, hesitações, cansaço: “Eu sou um sujeito com tendência pra sonolência, compreende? De forma que enquanto muita gente procura dormir, meu esforço é pra acordar. E a música me faz dormir. O flamenco me faz acordar.” Em outro momento do mesmo documentário, uma crítica de Barcelona afirma: “Cabral teve uma vida de sombras e uma obra de luzes. Eu o vi uma única vez e tinha sombra em seu olhar. Estou segura de que escrevia para se salvar”.
João Cabral tem uma relação talvez mais paradoxal com o sono. Seu primeiro livro, de 1941, chama-se Pedra do sono e já no segundo poema desta série – um poema sobre os olhos, aliás – aparece este verso, este desejo: “Os olhos ainda estão muito lúcidos”. Se for possível pensar na presença de uma lucidez sempre atribuída a João Cabral, sublinho também a palavra “ainda” como marca de algo que oscila – embora resista. De fato, as imagens mais recorrentes do livro estão ligadas a uma dificuldade de ver claramente: nuvem, noite, sonho, esquecimento – e estas recorrências parecem nos dizer justamente de uma veladura, de algo que jamais se apreende no todo. Já no “Poema de desintoxicação”, aparece esta referência do sono apontando para o sujeito mesmo que enuncia: “sou o vulto longínquo / de um homem dormindo”.
Um dos versos parece esclarecedor desta dicção do poema: “vozes sem cabeça”. Outro poema assim tematiza esta voz: “Dentro da noite ao meu lado / grandes contemplações silenciosas; / dentro da noite, dentro do sonho / onde os espaços e o silêncio se confundem”. A hesitação entre sono e vigília é constante. Se a poesia deve ser, para João Cabral, um modo de escrever o sono – então talvez seja também, por outro lado, como o flamenco, um modo de se salvar dele: um modo de permanecer desperto. A sonolência existe, é certo, mas aparece como fantasma, atravessada: ainda.
6,
Giorgio Agamben identifica em uma expropriação da experiência – que move parte da subjetividade contemporânea – a possibilidade de uma defesa provisória contra certa experiência guiada e manipulada. Neste movimento, então, a apatia do sono pode se constituir enquanto uma potência política. Isso permite imaginar, ainda – para além de um sono escrito – também um procedimento de leitura: o de um leitor sonolento – que lê e apreende com atenção flutuante, entendimento vago: sem responsabilidade com o sentido. Trata-se de uma leitura lenta, ainda – pouco produtiva.
7,
Em Um homem que dorme, romance do francês Georges Perec, o sono aparece como possibilidade de desaparecimento, anonimato. Dormir é desaparecer, é perder espessura: o homem que dorme é um homem vazio. Nas primeiras páginas, ao modo de Proust, depois de fechar os olhos – em uma incômoda segunda pessoa, no entanto – o narrador de Perec descreve sombras. “Assim que você fecha os olhos, a aventura do sono começa”, inicia o romance. E depois, em uma única frase que ocupa as duas primeiras páginas – o personagem afinal somos nós: “À penumbra familiar do quarto, volume escuro cortado por detalhes, onde sua memória identifica sem dificuldade os caminhos que você mil vezes percorreu, retraçando-os a partir do quadrado opaco da janela (…)”, levando também o leitor – na medida em que a escrita se torna mais abstrata, menos palpável – a um estado constante de inércia, leveza. Escrever o sono é tornar-se ausente, portanto, invisível, indiferente: forte.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
PROUST, Marcel. No caminho de Swann. Trad. Mário Quintana. São Paulo: Globo, 2006.
BARTHES, Roland Barthes. O neutro. Trad. Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
PEREC, George. Um homem que dorme. Trad. Dalva Laredo Diniz. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.
AGAMBEN, Giorgio. Infância e história: Destruição da experiência e origem da história. Tradução. Henrique Burigo. Belo Horizonte: UFMG, 2004.
MELO NETO, João Cabral. Pedra do sono. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

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