Je Vous Salue Sarajevo: Pré ensaio ou Notas sobre a barbárie | CAROLINA VOTTO

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“Os homens são tão privados de fazer história, que devem inventar, devem fazer guerras. Somente os homens fazem as guerras. Só mesmo um cara pode ter a ideia de colocar uma mochila nas costas, pôr um capacete na cabeça e atirar em seu vizinho”[1]

  1. Pré-ensaio

Cultura é a regra. Arte a exceção. Qual é o princípio ético-estético deflagrado por Godard ao anunciar Je Vous Salue Sarajevo? Entre a apropriação de trechos literários e a montagem sequencial de fragmentos da série de fotografias intituladas Blood and Honey (Bijeljina, Bósnia, 1992) do fotógrafo norte-americano Ron Haviv é possível se questionar: que mundo é este em que vivemos? O sadismo do soldado sérvio empunhando um rifle e quase chutando o rosto de alguém que não possui a mínima condição de defesa. Já na primeira sequência do vídeo um narrador quase silencioso anuncia fragmentos sobre o medo extraídos da peça Dialogue des Carmelites, adaptada em 1949 pelo escritor francês Georges Bernanos: “Num certo sentido, paúra é filha de Deus (…) Ela vela cada agonia, ela intercede pelos homens”. Na peça de Bernanos, uma religiosa enclausurada reivindica a idéia de que o medo, como fraqueza, não é ofensiva a Deus, ao contrário, o medo a tornaria “irmã de Cristo em sua agonia”.

A imagem congelada de um soldado sérvio empunhando um rifle na direção de um civil, uma mulher esticada ao chão, imobilizada pelo pé do soldado, são duas ou talvez três mulheres, são três soldados, a cena típica de um cenário urbano de guerra. Uniformes da lei, quando em estado de guerra, está se perde. Uma fotografia – alguém registrou o pé sob a cabeça de uma mulher, um indivíduo impotente diante do armamento bélico. Quem estava por detrás daquela lente? O que o motivou a pensar o registro? O que seria mais importante: registrar a guerra ou interferir nela?

Je Vous Salue Sarajevo, poderia não ser um filme a tratar da barbárie, mas ela está exposta, um “vídeo-arte” produzido pelo diretor franco-suíço Jean Luc Godard em 1993 e apresentado na 29ª Bienal de Arte de São Paulo em 2010. Essa obra de 1993 evidencia e coloca em voga mais uma vez os critérios ético-estéticos que envolvem o fazer da arte, sua relação íntima com a política e sua tradição. O fotógrafo registra e eu, Godard e alguns nos perguntamos: como o artista se insere no mundo da vida?

“Por onde podemos começar? Acho que pelo 11/09 de setembro. Quando o mundo todo dizia: “Ninguém pensou em algo assim?” Sim. Mas não se pode esperar que a palavra “pensar” seja entendida do mesmo modo. Muito pelo contrário. Se aprende a palavra “pensar”, e sabe-se como usá-la, mas dependendo das circunstâncias, não se pode descrevê-la. Peça que alguém olhe e diga se vê dúvida ou prazer e então que esqueça o rosto e fixe-se apenas no olhar. Os olhos parecem concentrar toda a expressão. Se surpreenderia ao constatar o quanto a expressão é suscetível…às mais variadas interpretações. Vê emoções…tristeza, uma falsa alegria, aborrecimento. Mas não se pode concluir. Não é a aparência que muda, é a INTERPRETAÇÃO![2] (Godard – curta-metragem Liberté et Patrie” (Liberdade e Pátria) realizou para a Exposição Nacional Suíça, em 2002.”

Se o que muda é a interpretação e a arte é a exceção e a cultura é a regra, a guerra é uma das formas mais antigas das civilizações lutarem por algo que muitas vezes se esquece o motivo ou reformulando a questão: quais as “racionalizações” que tornam compreensíveis os atos de guerra? No entanto, o século XX deflagra uma iconografia espetacular dos massacres produzidos pelos e para os civis. Segundo Susan Sontag, em um dos seus últimos ensaios de 2004 intitulado: Diante da dor dos outros, a ensaísta norte-americana constrói uma incômoda iconografia dos registros de guerras e a relação da fotografia com a espetacularização da dor e da vastidão de registros acerca do sofrimento. Sontag infere quem é o “nós” que constitui o alvo dessas fotos de choque? Sendo esse “nós” não somente os simpatizantes de uma ínfima nação ou um povo despossuído de Estado e em luta pela vida, mas também – uma parcela bem mais ampla – de pessoas que somente possuem interesse por alguma guerra ordinária travada em outro país. As fotos seriam assim meios de tornar “real” (ou “mais real”) assuntos que pessoas socialmente privilegiadas, ou em segurança, quiçá, preferissem ignorar.[3]

Como viver juntos com o caos que se carrega dentro de si? Godard preferiu não ignorar o rosto daquela mulher bósnia sendo esmagado por um rifle, o curta é uma montagem de uma única fotografia do artista Ron Haviv, que evidencia a crueldade da Guerra nos Balcãs no início da década de noventa do século passado. Je vous Salue Sarajevo – Seja bem- vindo a Sarajevo.

Talvez aqui, a indignação exposta por Godard em 1993 ao se deparar com as fotografias da Guerra nos Balcãs ressalte uma enorme dificuldade de “consentirmos” – com-sentir- diante do outro, sentir junto ao outro. Aristóteles em sua obra Ética a Nicômaco cita a importância do amigo como aquele indivíduo em que é possível sentir junto. A própria existência da amizade é um motivo da alegria de viver, na guerra, os amigos desaparecem, e a vida dá espaço à morte.

  1. A arte de viver ou Notas sobre a barbárie

Já na primeira cena do curta um narrador onipresente atenta: “De certa forma, medo é a filha de Deus, redimida na noite de sexta-feira santa. Ela não é bela, é zombada, amaldiçoada e renegada por todos. Mas não entenda mal, ela cuida de toda agonia mortal, ela intercede pela humanidade.” Nesse procedimento de montagem, Godard extraí da peça Diálogo das Carmelitas, adaptada em 1949 pelo já citado escritor que residiu no Brasil na década de trinta do século passado Georges Bernanos. Sendo está uma adaptação da obra “A última ao cadafalso” da escritora alemã Gertrud Von Le Fort (1876 – 1971). A peça trata da execução de 16 religiosas do Carmelo de Compiégne assassinadas por “revolucionários franceses” que as levaram a guilhotina no dia 17 de julho de 1794.

O narrador prossegue: “Todos falam a regra: cigarro, computador, camisetas, TV, turismo, guerra. Ninguém fala a exceção. Ela não é dita, é escrita: Flaubert, Dostoiévski. É composta: Gershwin, Mozart. É pintada: Cézanne, Vermeer. É filmada: Antonioni, Vigo. Ou é vivida, e se torna a arte de viver: Srebenica, Mostar, Sarajevo. A regra quer a morte da exceção. Então a regra para a Europa Cultural é organizar a morte da arte de viver, que ainda floresce.” Se a arte é a exceção, como está não ser conivente com a barbárie ou a decadência? A arte teria a potência de transfigurar a regra? Inventar a vida diante da dor é uma exceção para quem convive com a destruição. Em um mundo constituído de imagens, Godard parece ironizar a fragilidade da lente do fotógrafo norte-americano, é preciso coragem para direcionar o registro e não interferir na trama. A arte de viver – essa exceção que coloca em jogo o pensamento, o querer-artista como algo perigoso – já que se contrapõe a regra, compreendida enquanto dominação ou tipos de poder.

Deleuze resgata a noção de acontecimento das filosofias de vida da antiguidade helênica para ressaltar que aquilo que acontece é só o que temos e o gesto a ser imputado no ato é o único que reflete importância significativa, isto é, a aceitação do acontecimento é inventar a vida quando esta se apresenta. Não há cálculos ou prévias para nos consolarmos. Diante disso, poderíamos nos questionar: qual é a centelha de coragem que nos faz agir nos momentos em que as coisas acontecem? Aceitar a arte de viver, perpassa pela aceitação da vida em nossos diferentes infortúnios e uma condição ético-estética perpassa por esse caminho, seja ele pintado, escrito ou composto. Não se conformar com os descaminhos construídos pela decadência da cultura moderna. Perpetuar novas imagens de pensamento, quando o cineasta aponta para a arte enquanto exceção e nomeia alguns artistas canônicos da tradição moderna da literatura, música, artes visuais, este incide por sujeitos que produziram uma diferença, deixaram um rastro na cultura dominante.

É preciso ir aos lugares de desconforto do pensamento, lá se localizam as verdades que precisamos pensar, que muitas vezes doem, destoam das aprendizagens meramente conhecidas, como ressalta o filósofo francês – não pensaremos enquanto não formos forçados a pensar – deixar-se conduzir até verdades que produzem e exercem forças no pensamento, sendo activo e afirmativo. Isto não nos conduz a um método, mas uma paideia, uma formação, uma cultura. Pois, o método geralmente é um meio para nos evitar de ir até o lugar, ou podendo nos afastar da possibilidade de dele sair, como um fio estendido no labirinto.[4]

Na perspectiva nietzschiana o ético-estético ressoa a partir de um prisma ético que insere a vida enquanto valor, a vida possui valor e o estético enquanto transfigurativo, pressupõe inventar possibilidades de existência. E aqui, uma diferença de pensamento se produz, mais do que os elementos filosóficos que fazem da arte uma categoria importante do pensamento moderno, levando a obra de arte a produzir sensações de catarse ou seja de utilidade como na leitura aristotélica da tragédia grega[5] ou kantiana como fonte desinteressada do sublime produzido pelo gênio. A leitura de Nietzsche insere o estético na vida, isto é, uma estética da existência que pressupõe estratégias de pensamento que levem as fissuras mais profundas de si mesmo, pode-se transferir para uma cultura que interrogue seu tempo e reforme a vida conforme a necessidade.

Talvez Godard, Sontag, Barthes, atentem para uma arqueologia do viver junto que se perde frente a morte, sendo a barbárie um elemento presente em nossa cultura. A expressão tão proclamada por Benjamin no início do século XX aos malogros das guerras – a história humana é a história da barbárie – o quanto a guerra torna empobrecida qualquer tipo de experiência ou de como nos tornamos mais pobres em experiências comunicáveis, o que não pode ser diferente, como comunicar uma vida extirpada pelo poder? Pela ganância? Onde o que permanece em meio as tecnologias do combate, é o “frágil corpo humano”, assim Godard acena: corpos que atiram e corpos estirados. É de se pensar como a arte de viver surge dos lugares nefastos de dor. Sarajevo, Srebenica, Bósnia, uma guerra que ocorreu entre 1992 e 1995 na região da Bósnia e Herzegovina, reflexos da Guerra fria, espectros das máculas produzidas pelo capitalismo, por um país jovem do sul da Europa que tentou resistir e permanecer multicultural e independente. Não é à toa que Godard cita um fragmento de Louis Aragon em Le Créve-Coeur de 1941: Quando for hora de fechar o livro, Eu não terei arrependimentos. Eu vi tantos viverem tão mal, e tantos morrerem tão bem.

E para finalizar esse procedimento de montagem de quase dois minutos e meio, o diretor franco-suíço escolhe uma imagem de alguém em estado de recolhimento, desolação, de cabeça baixa, uma mulher. Uma imagem extraída da peça Ghost Trio de Samuel Beckett, obra escrita para a televisão, mais especificamente para o canal BBC britânico em 1973. Ghost trio ou os três fantasmas, narra a história de três personagens; três situações: pré-ação, ação e re-ação; três personagens: V a voz feminina, F: a figura masculina e um garoto como se fossem os três fantasmas. O que pretende Godard? Seria a cultura uma narrativa de fantasmas que se repetem? Primeiro o medo, depois o cristianismo, as formas de linguagem, as dores existenciais da história até os intempestivos artistas evidenciando que a arte seja o inatual, na permanência da transitoriedade, que é viver. Deverás se ter cuidado ao brincar de fantasmas.

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[1] GODARD. Jean-Luc. GODARD Jean-Luc. – Rio de Janeiro: Livraria Taurus Editora, 1985, p.82.

[2] (Godard – curta-metragem Liberté et Patrie” (Liberdade e Pátria) realizou para a Exposição Nacional Suíça, em 2002.” Disponível em:

[3] SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. Companhia das letras. – Rio de Janeiro, 2004, p.06.

[4] DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a filosofia. – Porto: Rés-Editora. p.66.

[5] O dizer sim à vida, mesmo em seus problemas mais duros e estranhos; à vontade de vida, alegrando-se da própria inesgotabilidade no sacrifício de seus mais elevados tipos – a isto chamei Dionisíaco, isto entendi como a ponte para a psicologia do poeta trágico. Não para livrar-se do pavor e da compaixão, não para purificar-se de um perigoso afeto mediante uma veemente descarga-assim o entendeu mal Aristóteles – mas para, além do pavor e da compaixão, ser em si mesmo o eterno prazer do vir a ser – esse prazer que traz em si também o prazer de destruir. NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo como alguém se torna o que é.- São Paulo: Cia das letras, 1995, p. 67.