Corpo, tempo e movimento: Entrevista com Diana Gilardenghi, Sandra Meyer, Paloma Bianchi e Milene Duenha|KAMILLA NUNES e LUCILA VILELA

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Concebido por Sandra Meyer, Milene Duenha, Paloma Bianchi e Diana Gilardenghi o projeto Corpo, tempo e movimento em seis ações de dança investiga a relação entre corpo, memória e cidade, tendo como resultado seis diferentes ações de dança realizadas em espaços públicos e em locais de circulação de arte. Em cena, Sandra Meyer (1957, SC, Brasil) e Diana Gilardenghi(1957, Bs As, Argentina) se encontram após quarenta anos de trabalho, para inventar e se reinventar na dança, para descobrirem o que ainda resiste e re-existe em seus modos de criar, nas relações de uma com a outra, com a história e com a cidade.

As seis ações configuram-se com um espetáculo (Ação 1: Narrativas em dois corpos), uma composição urbana (Ação 2: Dança Coral ), uma infiltração (Ação 3: Linhamar), dois solos (Ação 4: Sem título e Ação 5: Greta), uma proposição (Ação 6: O que é estar aqui?) e uma conversação (debate).

O Projeto foi realizado na cidade de Florianópolis em junho de 2016, via Edital Elisabete Anderle/2014, com o apoio do Estado de Santa Catarina, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte, Fundação Catarinense de Cultura e FUNCULTURAL.

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Corpos-Acao1bDiana Gilardenghi e Sandra Meyer. Ação 1: Narrativas em dois corpos

Kamilla Nunes e Lucila Vilela: O projeto “Corpo, Tempo e Movimento” nasce da proposta de duas artistas/pesquisadoras Milene Duenha e Paloma Bianchi de realizar um trabalho de dança com outras duas artistas, Diana Gilardenghi e Sandra Meyer, ambas de uma geração anterior. Como se deu essa troca? Como foi o processo de pesquisa, considerando os diferentes olhares, a história de cada uma e suas respectivas relações com a dança e a ilha de Santa Catarina?

Sandra Meyer: A provocação para trabalharmos juntas partiu de Milene e Paloma, por conta da observação dos modos de mover e de vivenciar a dança – minha e de Diana – enquanto atuávamos em sala de aula e em outros momentos. A questão inicial rondava em torno do que poderíamos dançar hoje, levando em conta nossas trajetórias longevas. O que ainda persistiria em nossos corpos das tantas danças vividas e das tantas escolhas ocorridas? Que dança poderia emergir agora? No momento em que começamos a acionar corpo, memória e história, entendemos que não poderíamos falar de modo genérico, mas sim de perspectivas pessoais e pontuais, sem, contudo, abdicar de uma implicação com o outro e o mundo. Começamos não pelo corpo propriamente dito numa sala de ensaio, mas pelo corpo situado na cidade.

Paloma Bianchi: Começamos o trabalho fazendo longas caminhadas pela cidade. Escolhíamos uma região e ficávamos perambulando e conversando por horas sobre nossas vidas pessoais, a cidade, nossas inquietações e desejos, também sobreo que poderia ser possível e impossível. Não partimos simplesmente do queríamos fazer, mas do que havia para se querer. As coisas e os espaços se apresentavam a nós, e tentamos lidar com tudo isso de uma forma poética e verdadeira. Talvez seja por isso que eu não sinta essa diferença de geração. Claro que há coisas que elas viveram e eu e a Milene não, mas essas histórias não criaram distância entre nós, ao contrário, nos uniram.

Diana Gilardenghi: Os percursos nos permitiram redescobrir a cidade, nos deter na observação dos detalhes, sua arquitetura, sua história, reparando no que resiste e persiste, o que lhe é próprio e particular. Diferentes olhares, tempo e experiências enriqueceram e diversificaram nossa pesquisa, funcionando como um convite ao relato numa partilha de lembranças. Para a ativação da memória partimos de diferentes disparadores: escritos, roupas, músicas, fotos, livros, etc.. Dessa investigação, um arquivo foi acessado, pois ao contrário de estabelecer uma diferença que gera distância, Milene e Paloma mensuraram e resignificaram nossas histórias de vida.

Milene Duenha: Acho que muitos artistas da dança no Brasil deixam de dançar, de estar em relação com um público, muito cedo, se voltando mais à pedagogia da dança, à teoria e à direção de trabalhos, talvez até se baseando em um clichê de virtuosismo relacionado a determinados padrões de fisicalidade que não incluem corpos mais maduros. Sandra e Diana, aos seus 59 anos, têm evidentemente um virtuosismo, uma história da dança encarnada, o que dá a ver uma técnica. Sua maturidade permite que essa técnica seja destrinchada ao ponto de permitir a emergência de novos sentidos, de outras direções. Como fazer dança com o ambiente? Como não nos impor uma dança desenvolvida previamente na sala de ensaio e transportada para esse ambiente? Diante disso, a noção de dança pôde ser ampliada para além dos corpos das artistas e para além de pré-determinações sobre o corpo que dança.

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Diana Gilardenghi e Sandra Meyer. Ação 2: Dança Coral

KN e LV: Foram realizadas seis ações distintas em diferentes locais da cidade, em paisagens urbanas e naturais, na rua e em espaços institucionais. Quais foram os critérios de seleção dos locais? Por que diferentes ações?

SM: Uma coisa ficou clara para todas nós desde o início do processo: não queríamos fazer um espetáculo aos moldes mais tradicionais, direcionado a um público que iria nos ver dançar, e tampouco num palco italiano. Chamar de ação ao invés de coreografia diz algo sobre o processo. Narrativas em dois corpos é a única ação que ocorre num ambiente teatral, porque fala dele também ao evocar as danças que realizamos no palco em nossa carreira de cerca de 40 anos. Dança Coral emergiu de um processo de escuta do lugar, a Ponta do Coral, em suas dimensões humanas, políticas e éticas, local de conflito entre pescadores e o setor imobiliário. Linhamar foi a ação que nos colocou primeiramente a ouvir as histórias das pessoas sobre a relação de perda do contato com o mar no centro da cidade, após o aterro ali realizado. Os dois solos – Sem título e Greta – performados por mim e Diana respectivamente, em uma galeria de arte e numa casa abandonada, ambos localizados no centro da cidade de Florianópolis, propiciaram ao público experienciar dimensões distintas da memória, pessoal e da cidade. E a última ação, O que é estar aqui?, realizada nas dunas da Lagoa da Conceição, foi partilhada entre todos os participantes, sem distinção entre artista e público.

DG: Possibilitar uma ativação de dança, seja no nossos corpos, seja no público, foi para mim um dos grandes desafios. Em cada ação não perdemos de vista esse possível outro que nos assiste, que é convidado, que faz parte, que traz novos sentidos e relações: Qual seria o seu lugar? A quem e como oferecer este instante? Cada ação propôs uma interação distinta com o público, propiciando que todos os corpos, não só os nossos, se movessem, que suas vozes também fizessem parte do acontecimento, como ocorreu na ação Linhamar, em que percebemos, nos depoimentos dos passantes, a nostalgia desse mar que não está mais lá. A perda de uma relação mais próxima da cidade com o mar foi reativada pela pergunta: até onde vinha o mar?

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Ação 3: Linhamar

KN e LV: A intervenção realizada na Ponta do Coral, poderíamos dizer, foi a mais performática das ações. Além do envolvimento com o público e com os moradores locais, teve a presença de fortes elementos visuais. Como se deu a relação da dança com as artes visuais nesta ação?

PB: Acho que esse trabalho tem muito a ver com a construção de imagens, mais do que qualquer uma das outras ações. Partimos de imagens. Um lugar poluído e cheio de lixo em um dos metros quadrados mais caros da cidade. Um terreno extenso, coberto por uma vegetação muito alta. Um barraco de madeira. Um mar que não se deve entrar. Restos de construções, restos objetos, restos de comida. Uma espécie de vazio, de calma, de isolamento. Pássaros, muitos tipos de pássaros, peixes. Uma comunidade que parece fora do contexto da Beira-mar Norte.

MD: Eu acho que essa ideia de performática pode ter sido uma atribuição de vocês mais relacionada à dimensão que essa ação teve. Por envolver uma parte da comunidade e por realizar um convite ao público a observar/habitar aquele ambiente. Talvez também por transferir a dança para o corpo do público que percorre o trajeto, que se contamina pela dança coral e que compõe um lounge de fim de tarde, regado à espumante com o nome Conde Foucauld, numa pequena faixa de areia. Todas as ações de Corpo tempo e movimento são efeito da intersecção entre dança e performance, mas a Dança Coral ganhou reverberação na mídia pelo formato da proposição e pelo conteúdo crítico que ela evidenciava. Nossa intenção não era a de apresentar uma dança que explora o ambiente como cenário, mas pensar como uma dança pode compor o ambiente ao mesmo tempo em que é composta por ele. Como uma dança pode dizer de questões sociais, de problemas urbanos, convidando-nos a não ignorar o mal-cheiro e a sujeira, enquanto admiramos a beleza peculiar do local.Quanto aos efeitos das imagens, muito foi discutido com a Alice Assal, nossa figurinista, que também se responsabilizou pela interferência visual no espaço. Sabíamos que o trabalho na Ponta do Coral demandaria tempo, atenção e um olhar apurado. Alice aceitou embarcar conosco nessa aventura com muita generosidade. Houve um estudo intenso acerca do que poderia funcionar naquele ambiente, a relação de distância entre a faixa de areia e o barco, as formas de ressaltar a poluição do lugar, a criação das figuras com as quais o público se depararia, a ambientação contrastante com aquela realidade, enfim, tudo que foi vivenciado foi efeito de muito planejamento e teste. O apuro em relação à produção de imagens se deu também pela nossa intenção de extrair material para um futuro trabalho de videoarte, no qual o cineasta Alan Langdon está trabalhando atualmente. A uniformização do público com roupas pretas, máscaras e luvas, era uma possibilidade de torná-lo agente, de entendê-lo como parte da paisagem, compondo-a, mas também era uma forma de criar uma espécie de marcha fúnebre ante aquele mar poluído, um coro uníssono, uma comunidade cujos corpos estão implicados no acontecimento.

SM: Dança Coral emergiu de um processo de escuta do lugar. É um lugar de resistência a sobrevivência de uma Florianópolis que está sendo devorada pela especulação imobiliária, pois há um projeto para construir ali um hotel de luxo. O que fazer num lugar assim? O performático surgiu da necessidade de uma ação política, mas sem ser de um modo militante conhecido. Queríamos intensificar o espaço via arte, por meio de uma política do sensível, aqui citando Jacques Rancière, e que dela escoasse a nossa visão crítica. A dança coral idealizada por Rudolf Laban no começo do século XX, pensada para um corpo social não especialista em dança, foi um dos dispositivos. Trabalhamos com pequenas ações que pudessem ser incorporados pelos que lá estivessem, e que pontuassem a presença de todos naquele lugar. Outro dispositivo levou o trabalho para um tom mais carnavalesco. Criamos duas alegorias e as fizemos navegar num barco pesqueiro: na primeira Diana e eu vestíamos fantasias de carnaval ao som de uma marchinha de um Brasil tropical, e na segunda navegávamos evocando uma atmosfera nada otimista com a imagem de um anjo da morte com asas negras enormes. Após uma experiência sensível ter sido ativada por meio de uma caminhada na mata espessa, o público visualizava estas imagens que navegavam no mar da Av. Beira-mar sentado na praia tomando espumante, numa alusão a certos espaços “vips” da cidade. Aliado ao percurso das pessoas no espaço as imagens visuais desta ação promoveram um modo de percepção, de imersão que continha um convite ao olhar demorado e contemplativo para a cidade.

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Sandra Meyer em Ação 4: Sem Título                                                Diana Gilardenghi em Ação 5: Greta

KN e LV: As ações 4 e 5 foram solos separados mas que dialogavam entre si, seja através do contraste entre luz e sombra ou mesmo no trajeto que ligava os dois locais. Quais as conexões e distanciamentos entre os solos?

DG: Os solos surgiram de questões formuladas na pergunta: O que é dança para esses corpos agora? Esta e outras perguntas que Milene e Paloma insistiam em trazer a fim de descobrir e redescobrir o modo de mover destes corpos. Os materiais levantados dessa questão se desdobram e acham o seu lugar para cada ação. Acreditávamos na conexão processual das ações, no entanto não sabíamos ao certo como estas se configurariam. Foi no decorrer da investigação que as singularidades dos nossos modos de acionar dança – mais especificamente nos dois solos – se evidenciaram. O que nos unia e nos conectava foi o reencontro com nossas memórias, as de ontem e as de hoje onde o passado e o presente se refazem.

SM: Sendo filha de um artista plástico, Meyer Filho (1919-1991), algumas ações surgiram por meio de memórias de afetos que eu tinha em relação a meu pai, à sua trajetória como artista. A performance ocorreu no Memorial Meyer Filho, espaço em homenagem a meu pai, localizado no centro da cidade. Trata-se de um “cubo branco”.  A ação 4 – Sem título é humorada, pois convoco memórias do lado irreverente do artista. Por meio do movimento dançado reinvento um procedimento que ele utilizava como artista visual (ele usava o carimbo para desenhar e colocar sua digital no papel). Em dado momento “carimbo” com o corpo embebido em tinta cor laranja as paredes neutras do cubo branco. Já a ação de Diana, realizada numa casa abandonada localizada na mesma rua da ação do Memorial Meyer Filho, demandou que os participantes caminhassem pela rua até chegar na casa. Greta evocava uma atmosfera totalmente diferente da anterior. Na casa escura, no ambiente instável, aparentemente prestes a desabar, Diana ativou uma dança soturna, inominável, grotesca.

PB: Essas ações se deram pelo manuseamento, pelo acaso e pela contingência, uma combinação dos três. Sandra e Diana criam dança de modos muito diversos, não podíamos ignorar essas diferenças. Na sala de ensaio vimos que poderíamos brincar com a história da Sandra e jogar com a relação entre a artista Sandra e o artista Meyer Filho, seu pai. A Diana trouxe uma vontade de dança a partir do uso da voz. Nas improvisações foi se delineando aquele ser que surgiu a partir da própria experiência com a casa abandonada. Sabíamos que o solo da Sandra aconteceria no Memorial Meyer Filho, mas não sabíamos onde seria o da Diana. Andamos por vários lugares do centro procurando o espaço ideal para este solo. Encontramos a casa abandonada duas semanas antes da data prevista da ação, espaços que apresentavam as mesmas diferenças que as danças de Diana e Sandra trazem. As duas ações compostas revelam muito da nossa sociedade, mundos quase paralelos que compartilham um mesmo território. Se de um lado temos o mundo da arte, uma sala muito branca, linda e limpa, por outro há a sujeira, o obscuro, o abandonado. A isso adicionamos humor e ironia, porque as coisas não são tão puras, opostas ou diferentes como parece à primeira vista.


O público participa da Ação 6: O que é estar aquí?

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