Patricia Osses: vestígios de uma paisagem (des)montada | JOSIMAR FERREIRA

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Da fragilidade da faculdade de olhar, que permite considerar como existentes o visível e o invisível, Didi-Huberman identifica a modalidade da visão. Precisamente, as duas formas que essa atividade humana assume; a separação entre dois estados que definem o ver – uma cisão inelutável, adjetivo de uma expressão de James Joyce, em Ulisses: “inelutável modalidade do visível”. Essa dupla natureza apresenta-se inelutável, quando nos damos conta de que o visível não demarca apenas presença, mas também ausência, ou, “quando ver é sentir que algo inelutavelmente nos escapa, isto é: quando ver é perder”[1]. E, nesse ponto, recorre à figura da imagem que nos olha: essas latências, ao não nos deixarem vê-las, estabelecem uma inversão de ponto de vista; são elas que nos olham. A cisão do ato de ver abre essa experiência em duas – a de ver o artefato, a evidência, o volume; e a de ver o vazio, as latências do objeto visual.

Como proposta de uma residência artística na Inglaterra a artista plástica Patrícia Osses (chilena, radicada em São Paulo), visava trabalhar os espaços internos e externos de uma casa inglesa, considerando no processo elementos tanto da arquitetura como da literatura locais. Suas referências de espaços internos de casas vieram de contos e romances de escritores como Virginia Woolf, Lewis Carrol, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, irmãs Brönte e Jane Austen, entre outros, posto que alguns escritores, quando narram espaços, têm como referência suas próprias casas, suas cidades e vilas, já que especialmente seus processos de criação se dão em espaços internos, em casas, em quartos[2].

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A casa escolhida para residir e produzir seus trabalhos tinha o nome de “The Hurst”; que foi rebatizada como “John’s House”, pela artista. Durante anos a casa manteve seus interiores vazios e desolados, sem luz ou água, sem que ninguém voltasse a habitá-los depois da morte do seu último morador, um escritor. Situada dentro de uma fazenda, a casa tinha como jardim um verdadeiro bosque que, na época em que a artista chegou para trabalhar, em plena primavera, resplandecia de cores e formas numa vegetação de uma densidade adquirida pela idade respeitável de suas árvores, pela escala gigantesca sem ser ameaçadora, pela domesticação de sua natureza após séculos de circulação. Além de configurar esse jardim de proporções extremas, o bosque constituía um caminho cotidiano para a vila de Clun, em Shropshire. Dessa forma, o entorno da casa adquiria os mesmos direitos que o seu interior, em se tratando de transformar-se num espaço de investigação.

A paisagem, assim como as janelas, fazia parte inerente da casa. Osses percorreu a paisagem de seus arredores, de um verde sempre dominante, e sentiu a necessidade de sobrepor a cor roxa, como contraste e alívio. Encontrou o tom da cor que precisava na seda da Índia, e com cinquenta metros de tecido registrou seu percurso, simplesmente enrolada no tecido, pela paisagem: “Purple Green”. Os caminhos retratados eram percursos totalmente integrados ao cotidiano do viver naquele lugar: caminhadas para a vila mais próxima, ao correio, ao supermercado ou simplesmente passeios na floresta ao redor. Uma performance não limitada por vitrines ou paredes, mas contida dentro dos cinquenta metros de um vestido infinito. O corpo trazia na imagem a escala da natureza daquele lugar, monumental e com sinais de eternidade, ao lado da efêmera presença da ação: embrulhar o corpo na cor e arrastá-la pela paisagem. O início é a contemplação, desde o cômodo verde da casa: a figura feminina olha para fora, e do olhar escapa para a ação de percorrer a paisagem que observa, ao redor dos lagos, dentro do bosque avermelhado, sob uma grande árvore, na entrada de uma torre ao ser observada por um cavalo. Paisagens quase irreais, com uma vestimenta inverossímil, construindo essas trilhas violetas sobre o verde intenso, com a vontade da atemporalidade do cavalo, das árvores gigantes, do lago[3]. O sentido de fábula é inerente, o perder-se e o sonho diurno em espaços abertos, numa camuflagem ou mimetização desse lugar, deixando seus vestígios.

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O tema da memória e de seus vestígios (traces) ocupa pesquisadores de áreas diversas na medida em que a preocupação com o tempo e com o que resta dele em seu passar vertiginoso é o que constitui nossa visão de mundo e nossa identidade. Por se constituir em temática fulcral da teoria e da crítica de arte e em matéria recorrente da literatura de todos os tempos, retomada de forma incontornável na contemporaneidade. Na verdade, entre memória e esquecimento, o que sobra são os vestígios, os fragmentos do vivido, o qual jamais pode ser recuperado na sua integralidade. De onde a preocupação dos regimes totalitários em “apagar os rastros” para que seus atos arbitrários não possam ser lembrados. Mas sempre sobra algum rastro que a sensibilidade dos artistas consegue retraçar e incorporar à matéria poética. Desse modo, se nossa memória é um receptáculo de resíduos memoriais, a imagem também o é, o que fez Derrida afirmar que toda a escritura é uma “casa assombrada”, devido a recorrências tais como citações, alusões, menções, recordações, referências.

Georges Didi-Huberman faz referência à distinção entre “imago” e “vestigium”, estabelecida por teólogos medievais. Estes consideravam que o que podemos ver, a imagem, deve ser visto sempre como “o traço de uma semelhança perdida, arruinada, a semelhança de Deus perdida no pecado”[4]. A imagem dá existência ao vestígio, o vestígio só ganha presença pela imagem. A postura de não recusar a cisão do ver, de aceitar a distinção entre imagem e vestígio, pode ser entendida como uma volta à noção de aura. É tomar as imagens como fantasma e sintoma, em constante movimento de montagem de sentidos. Essa postura de intérprete pode ser definida como uma espécie de retomada da imaginação como expediente de leitura de vestígios, permitindo que tempos e espaços atuem uns sobre os outros, por colisões ou por fusões, por rupturas ou por metamorfoses nas imagens de Osses.

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[1] DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Ed. 34, 1998, p. 34.

[2] OSSES, Patricia. A construção da casa. Dissertação (mestrado) – Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP, São Paulo, 2010.

[3] OSSES, Patricia. A construção da casa. Dissertação (mestrado) – Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP, São Paulo, 2010.

[4] DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Ed. 34, 1998, p. 35.