Outrora e Agora | ANDERSON DO CARMO

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Levar a cabo uma curadoria não é apenas assumir responsabilidade pelo que se escolhe para compor uma programação; é assumir responsabilidade por um entendimento sobre dança, corpo, movimento e é também fazer-se responsável por tudo aquilo que não se escolhe para dentro deste entendimento figurar.

A responsabilidade da qual se fala aqui é a de empreender uma jornada cinética em busca da resposta – muito provavelmente para sempre perdida – da pergunta: de onde vem o movimento? O que faz existir isso que se chama movimento? Uma resposta que se apresenta como possivel é sucinta mas nem por isso limitadora: vontade. O que faz movimento existir é desejo de movimento. Paradoxo colocado: vontade/desejo/querer por si só não são uma ordem de movimento? O movimento seria então sua própria causa e consequência? “Mover” na verdade seria verbo defectivo que se conjuga apenas no tempo presente? Aqui se desemboca em uma encruzilhada que muito ainda nos ocupará ao pensar-se o movimento.

Se assumirmos que “querer-mover” já é mover, por mais imperceptível que fosse o movimento sempre aqui estaria a dar forma aos corpos; talvez fossilizado, mas nem por isso inerte. Sintomaticamente, pensar numa ausência de movimento seria evidência exatamente da inviabilidade de não tê-lo – o movimento – como referência. Trazendo Didi-Huberman para a conversa, falariamos de movimentos fósseis, tempo estratificado que como potência se faria presente nos movimentos. Mesmo em uma dança sem movimento, este estaria latente na paragem, como “bloco de pré-história subitamente presentificado, um ‘resto vital’ que de repente ganha vida […] fóssil que se põe a dançar ou até a gritar”*.

Movimento e dança seriam indissociáveis? Sim. Mas certamente não seriam sinônimos: como potência em obviedade o (não)movimento não cansa de fazer com a dança seja e volte a ser dança; mas sabendo que nesta odisseia não haverá sequer promessa de chegada e estadia pacata em um lar a muito abandonado, restaria agrupar, dispor, articular pistas em função deste “querer-mover” para se desenhar mapas que jamais serão seguidos. Escrevendo aqui e agora, fazer curadoria parece ser colecionar pistas para um “saber-querer-mover”. Sempre pistas, nunca dados verificáveis: lembremos pois que a resposta muito provavelmente está perdida, e muito provavelmente é melhor que assim seja. Destarte o movimento que faz o Múltipla Dança acontecer neste em 2014 é conectar para “criar” sentidos.

A pista primeira, evidente em rápida olhadela na programação, é a corajosa e maciça prevalência de trabalhos solo: são cinco deles ao lado de duas coreografias de grupo. Uma coleção de “eu” – no plural – sendo radicalmente experimentados na esfera da mobilidade, fazendo de seus desejos de mover – e de nosso suposto saber sobre este desejo de movimento – verdadeiras máquinas de guerra, revoluções empreendidas em escala microscópica e por isso autênticas e viáveis. Um solo de dança apresenta uma complexidade quase não reproduzível em outra estrutura: desloca o protagonismo da ação de seu sujeito para seu acontecimento. No texto de abertura no programa do evento logo se via a palavra que é misto de clausura e escapatória e que teima em dar as mãos a qualquer e todo artista: narcisismo. Pois bem, quando o Narciso mitológico se verga sobre a beira de um rio e o fascínio pelo que vê o engole e afoga, provavelmente não é por ver a si que ele perece, mas por sua capacidade – em parceria com a superfície reflexiva do rio – de produzir imagem.

Giorgio Agamben fala em seu “Estâncias” num fantasma de Narciso: é o sair de si e o permanecer deste si em outro que o faz perecer. Bom é lembrar que o mito nos narra que ao ser procurado, o que encontram de Narciso é uma flor: beleza tão incontestável quanto perecível e possível apenas na abertura a atravessamentos aniquiladores do protagonismo do sujeito em favor do protagonismo do acontecimento.

Se os sujeitos, se os “eu” aqui se evidenciam nos corpos e cada corpo é uma biografia, como dar a ver tais atravessamentos? E para que? Partindo do pressuposto que corpo não é nem meio, nem instrumento, nem campo de relação com o mundo, mas é em si, em sua materialidade relação com o mundo, seriam as biografias narrativas sobre nossa relação com o mundo? O significante “múltiplo” já no nome do evento talvez seja a segunda pista para nosso mapa: a multiplicidade como potência de ser e de agir. Se a multiplicidade é o pressuposto e a potência o objetivo, a construção de um comum seria do que nos ocuparíamos.

E aí, mais uma vez, depara-se com muito, com tanto por se fazer: como construir o comum num ambiente – a contemporaneidade na dança – onde o “de agora” é a busca? Como apreender singularidades tão poderosas quanto enigmáticas? Vertigem de porquês, em alguma medida manter perguntas, dúvidas e interrogações sobre este “de agora” parece começo promissor. O “de agora” é só de agora? Numa de suas últimas publicações no Brasil, Didi-Huberman visita o universo do historiador das artes visuais Aby Warburg (1866-1929) e revela seu cirúrgico procedimento de permanências de toda uma imagética pagã presente nas obras renascentistas que narram acontecimentos cristãos. As imagens sobrevivem, os fósseis estão em constante movimento, e a busca pelo “de agora” é busca própria e inerente a dança já há muito: cada dança teria escavado o “de agora” de seu tempo? Não seria tempo de pensar para além do “de agora” o que de “outrora” nesse permanece?

Permanentemente na batalha entre liberdade e restrição, a dança se apresenta neste ano 7 do Múltipla como vontade de não acabar, vontade de não ter fim, vontade de continuar, vontade, vontade, vontade… Evocando mais uma vez Warburg, vale pensar que sua maior obra possivelmente tenha sido seu “Atlas Mnemosyne”, um grande compêndio-memória onde são justapostas uma infinidade de imagens ligadas pela permanência, sobrevivência, presença do “outrora” no “agora”. Sua própria presença em tal obra é mero rastro que aglomera o que outros fizeram, sua presença é um desaparecimento. Também assim, o Narciso que perece diante de sua imagem e em outro permanece, tem sua presença potencializada ao desaparecer enquanto indivíduo e enquanto vestígio se dar a ver. Se o “eu” é clausura e escapatória na aventura que é entender subjetividades e se o “de agora” é clausura e escapatória no labirinto que é a contemporaneidade da dança, a bússola e terceira pista para esta empreitada é se agarrar a pergunta: como eu me engajo na construção do agora?

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*DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Contraponto Editora: Tio de Janeiro, 2013.

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