Desejei do fundo da minha alma que “Ninhos” fosse diferente. Foi. | PEDRO COIMBRA

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Ninhos1Balangandança Cia, Ninhos, 2014. Foto: Cristiano Prim

As crianças chegavam aos montes e o pátio interno da EBM João Alfredo Rhor parecia que não suportaria aquele enxame de pequenos seres. O espetáculo “ninhos” do grupo Balangandança1 seria originalmente apresentado no Parque Ecológico do Córrego Grande, mas foi mudado para o pátio da escola próxima por motivo de chuva.

As crianças chegavam aos montes e junto crescia um coro infantil: “começa, começa, começa!”. Por um momento lembrei-me dos meus tempos de criança, onde era levado a assistir espetáculos “infantis” e repetia este mesmo coro. Vinte anos se passaram e o coro permanece dentro do imaginário coletivo como um grito de ansiedade. A medida que esta imagem voltava a minha mente, voltava junto o filme daqueles espetáculos infantis que assisti. Um pior que o outro. Todos iguais. A mesma fórmula. As mesmas histórias. Mesmo figurino e cenário. Até mesmo as mesmas acentuações e pausas nas mesmas frases. Desejei do fundo da minha alma que “ninhos” fosse diferente. Foi.

O espetáculo abriu com uma integrante do grupo apresentando o nome do espetáculo, da companhia e a proposta: “…fazemos dança para crianças. Aquelas pequenas. As médias, e aquelas que já cresceram. A criança que existe dentro de cada um de nós”. Em seguida, explicou para as crianças que seria um espetáculo sem narrativa. Não teria uma historinha com começo, meio e fim. Seria algo diferente. Pediu para que todos imaginassem como seria o seu ninho. Perguntou: “Como seria seu ninho?”. Prontamente uma criança respondeu: “Seria muito legal!”. E essa resposta deu o tom para o espetáculo inteiro.

Ninhos2Balangandança Cia, Ninhos, 2014. Foto: Cristiano Prim

Os bailarinos desenvolviam uma série de jogos físicos que alternavam entre a execução coreográfica e o jogo infantil. Era perceptível a forte referência à uma certa mimese corporal relativa a certos animais. Digo perceptível pois mais de uma vez as crianças falavam: “olha só, um (insira algum animal)”. E as crianças estavam altamente presentes.

A medida que os bailarinos criavam e estabeleciam os jogos de cada bloco cênico, as crianças faziam o mesmo na plateia. Reproduziam gestos e movimentos coreográficos. Os espectadores estavam atentos e participativos. Era concreto: as crianças estavam presentes. Isto chama atenção exatamente por não existir uma narrativa concreta estabelecida no espetáculo, o que julgamos necessário para manter uma criança entretida. Não existia uma história ou personagens que as crianças poderiam se apegar. O que existia, unicamente, era um jogo entre os bailarinos e também entre as crianças. Elas brincavam e era lindo.

Os espectadores estavam envolvidos de uma forma tão incrível que o espetáculo terminou com todos entrando aos poucos em cena e compondo um lindo ninho (sei que a utilização desta palavra neste contexto fica um pouco clichê, mas honestamente: quem liga?). A imagem final era realmente emocionante: bailarinos e espectadores unidos em apenas um ato de carinho e compartilhando um momento e uma ação.

A reflexão foi quase instantânea: este é sem dúvida um espetáculo de dança contemporânea para crianças. Toda organização cênica (incluindo de movimentação e lógica por trás dos jogos) é pensada de forma a provocar estados e respostas nos bailarinos. O coreográfico se torna um desenho-no-espaço a medida em que os bailarinos devem responder concretamente a estímulos internos e externos que surgem da relação (palavra que julgo central neste trabalho e que dialoga fortemente com diversas propostas e pensamentos acerca da dança contemporânea). O trabalho se torna voltado ao público infantil a medida em que o imaginário contido no mesmo (que serve de subsídio para as lógicas-coreo dos bailarinos) é aquele colocado para a criança. Ela reconhece padrões na dança de “ninhos” na mesma medida em que nós (adultos) reconhecemos padrões sociais em espetáculos diversos. A grande diferença, e inteligência do grupo, está na proposta de envolvimento para/com a plateia.

As crianças querem participar não por que são convidadas, mas por observar o que está sendo feito a sua frente e julgar que aquilo é divertido. Elas efetivamente pensam: “eu posso fazer isso”. Além de pensar elas falaram (um menino do meu lado virou para a mãe e perguntou se podia ir lá dançar com eles). O espetáculo convida as crianças pela proposta física colocada perante a plateia. As crianças se sentem impulsionadas a responder aos estímulos, da mesma forma que os bailarinos precisam responder aos estímulos em cena.

O jogo de resposta (física) se torna real quando concretizado pela plateia. A dança passa a existir além do palco (do pátio) para poder habitar um lugar dentro do corpo (e em relação a outros corpos) daquele que está a princípio apenas presenciando um ato. O espectador deixa de ser mera testemunha para se tornar cúmplice. O espaço do imaginário, antes reservado a ficção (e aqueles espetáculos bosta de minha infância), se torna o espaço que o corpo habita com outros.

De preferência construindo ninhos muito legais.

Ninhos3Balangandança Cia, Ninhos, 2014. Foto: Cristiano Prim


1 Balangandança é um grupo de dança fundado em 1977 por Georgia Lengos. Seu foco sempre foi a pesquisa da Linguagem Corporal da criança através de trabalhos originais em dança contemporânea.