Construir “com” – Modos de Operar e Perceber as Lógicas da Escrita | JUSSARA BELCHIOR

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A oficina Escrita com a Dança conduzida por Joubert Arrais1 durante o Festival Múltipla Dança2 foi uma experiência produtiva para discutir os formatos e modos de construção de um texto, crítico ou não. Reparando no nome da oficina o uso da preposição “com” provoca uma discussão importante, a preposição determina o tipo de relação entre os termos, portanto “escrever com” estabelece uma relação de companhia entre dança e escrita. Esse é um modo de apresentar o texto como um espaço de troca com a dança, um espaço que mantém viva as relações estabelecidas. Se tratando de uma escrita crítica, a “escrita com” pretende desestigmatizar a crítica como argumentos fechados e certeiros, essa formulação apresenta o texto como uma possibilidade de conversa pois sua abertura está presente assim como a obra se abre diante o espectador.

Para desenvolver um pensamento sobre, e com a escrita Joubert propõem antes de tudo a relação com a palavra. Num primeiro momento nos voltamos para uma relação mais pessoal, para trazer essa parcela de pessoalidade partimos do nome de cada um. Escrever o próprio nome num papel, uma instrução pontual que requer muitas escolhas; desde tamanho, formato, cor e posição da letra até o modo de expor o papel no espaço. Espalhados pela sala os nomes sugerem pequenas demonstrações de organização das possibilidades e as escolhas revelam a potência de complexidade envolvida nesse exercício aparentemente simples. Nesse compartilhamento de percepções, conexões e histórias aparecem, são similaridades e diferenças que ampliam o campo de discussão, além disso, atentando-se a um parâmetro mais específico, o nome resgata as relações com a própria escrita na história de cada um, é geralmente a primeira ou uma das primeiras palavras que se aprende a escrever e desde então se cria os modos de articular a escrita.

A experiência da oficina trouxe uma lógica de desdobramento construída aos poucos, como camadas que se complementam. Escrever, dentro de um breve período de tempo, um texto para relatar uma experiência, novamente uma proposta que assimila a pessoalidade como uma ferramenta que pode ao contrário de restringir, habilitar as pessoas a relacionarem informações, isto porque Joubert apresenta escrita vivida numa condição de processo, e o processo é individual embora não seja individualista. Depois de ler para todos o texto criado, cada autor escolheu uma palavra que fosse de algum modo sensação, resumo ou potência dessa experiência. A palavra foi retirada de seu contexto, mas ainda assim esse contexto está presente nela, é claro que ela não dá conta de tudo, mas nem é esse o objetivo, quando essa palavra é reposicionada novas camadas de entendimento podem surgir, ela aponta direcionamentos, ela se abre para uma nova rede de conexões.

Esse recorte gerou um novo plano para ser explorado, a palavra escolhida precisava ter um lugar no espaço para estar, e cada um experimentou por um tempo uma fisicalidade da palavra, isto é, a partir dessa vivência de discussão, produção e compartilhamento, pesquisamos como o corpo encontra o seu modo de mover. O reorganizar é parte fundamental desde processo, um exemplo bem claro ocorrido durante esse exercício pode ser descrito aqui: a palavra “ranger”, foi retirada de um contexto de vento e barulho das árvores, e foi posicionada na janela entreaberta da sala, onde o vento poderia se manifestar. Porém, enquanto as pessoas se moveram pela sala o chão de madeira rangeu insistentemente, o ranger também é da materialidade do chão de madeira, e a emergência desse ranger não pôde ser ignorada. O pesquisador, independente da área, precisa estar aberto para lidar com os imprevistos e incertezas, e neste caso o ranger da madeira tornou-se a corporalidade a ser explorada, sem no entanto substituir o vento mas sim coexistindo. A coexistência é possível porque a pesquisa é um processo moldável que cria uma rede de direções e convergências, não é um ponto, um objetivo ou um resultado a ser encontrado. A disponibilidade é imprescindível, e durante essa oficina pudemos perceber essa necessidade como uma característica também da escrita. Não é sempre que as mudanças emergem com tanta urgência como no caso descrito acima, e por isso devemos estar atentos para encontrar como “construir com”.

Construir “com” passa a ser uma experiência radical no exercício que segue, como um novo capítulo que se inicia partimos para um exercício que trabalha justamente nas especificidades da escrita e desse modo de se relacionar com ela. Um caderno adaptado, feito de algumas folhas de papel sulfite dobradas e grampeadas, folhas sem linha que deveriam ser preenchidas por palavras durante um período prolongado, permanecer por pelo menos trinta minutos numa escrita contínua, encontrando o estado de disponibilidade da ação de escrever. Dessa situação emergem várias possibilidades e necessidades, manter a continuidade requer algumas escolhas instantâneas, e essas escolhas podem se desenvolver e virarem estratégias e essa constante transformação detona a potência dessa experiência.

Para cumprir a condição de escrever sem cessar o texto toma um formato de descontinuidade, ordem e organização do texto ocupam um lugar transitório. Essa característica fica ainda mais evidente quando Joubert propõem que os cadernos sejam trocados durante a vivência, uma prática também de desapego, de jogar as ideias pro mundo, e talvez perder o controle sobre a situação. As primeiras trocas foram sugeridas por ele, mas ao longo do percurso as trocas passam a ser parte dessa continuidade cruzada e cada um observa dentro do processo o momento pertinente da troca. A posição de quem escreve não é uma posição tradicional de conforto, com corpos e cadernos bem apoiados, o movimento pela sala e a variação da posição interferem também no modo de operar o texto, e, ao mesmo tempo, facilita as oportunidades de troca que podem ocorrer. Pequenos detalhes que constroem um ambiente de laboratório da escrita, todas essas condições são pensadas de maneira a propiciar a emergência das estratégias e lógicas que são específicas dum processo de escrita.

Quando se escreve à mão é muito difícil acompanhar a velocidade do raciocínio, e chama atenção o modo como vivenciamos a irreversibilidade do tempo nesse fluxo de continuar, seguir e persistir. O pensamento viaja, e para que acompanhá-lo com a escrita não seja uma tarefa fadada ao fracasso o ato de escrever precisa fazer conhecer suas propriedades, e essas permitem que a escrita se mantenha ativa quando parece que não se tem mais nada a escrever.

Em tempo, as discussões estão voltadas para a produção de uma escrita crítica. A relação proposta entre obra e texto crítico estão no âmbito da cumplicidade, na tentativa de instaurar uma conversa que reverbera entre artista e crítico, entre obra e crítica, há portanto uma relação de codependência. O texto crítico é capaz de proliferar as discussões propostas pelos artistas e refletir sobre como as questões estão sendo abordadas por eles, a crítica não deve ser somente uma reação à obra, ela pode ser, inclusive, uma forma de acesso a obra, uma mediadora no trânsito das informações.

Três momentos são apresentados por Joubert como parâmetros que guiam o espectador crítico a reinscrever no mundo os aspectos vistos em cena, esses parâmetros não se configuram como uma receita, eles são como um mapa de uma organização do possível. A observação é a primeira instância é a fase de reconhecer o que é ou o que tem àquela obra, como um levantamento de assuntos. A partir daí cria-se um espaço para analisar e discutir como foram abordados esses assuntos. E finalmente abre-se o espaço para conexões, é o momento de agregar e dialogar, de expandir as tensões criadas pela obra.

A pessoalidade é, entendida por Joubert, como atributo inerente a quem se propõem a escrever, as correlações são criadas a partir de um ponto de vista, mas esse ponto não precisa ter uma posição fixa, e ele pode ainda gerar redes e não apenas linhas, o desafio está em não transformar essas pessoalidades em personalidades. Durante a oficina muitas vezes fomos colocados a alargar a experiência do pessoal, pois ela é capaz de gerar complexidade e autonomia, essa habilidade traz sobretudo uma potência ao ato de escrever.

 

1 Joubert Arrais é artista-pesquisador e crítico de dança. Docente do bacharelado e licenciatura em Dança – Fap/Unespar. Doutorando em Comunicação e Semiótica (PUC/SP), mestre em Dança (PPGDanca/UFBA) e bacharel em Comunicação Social – Jornalismo (UFC), com formação artística pelo centro em movimento – c.e.m/Lisboa. Desde 2007, experimenta seus estudos de crítica no corpo dançante com performances autorais. Escreve no <enquantodancas.net>.

2 Múltipla Dança – Festival Internacional de Dança Contemporânea. Florianópolis, SC, Brasil.<http://multipladanca.art.br>