Aniquilar a si mesmo para ser | ELKE SIEDLER

Me propus a compartilhar a experiência de assistir o solo SOBRE EXPECTATIVAS E PROMESSAS, de Alejandro Ahmed, no Múltipla Dança – Festival Internacional de Dança Contemporânea. Desde o início da apresentação tratei de descrever, num pedaço de papel, as ações desenvolvidas pelo artista para utilizar na escrita que faria horas mais tarde. Após várias tentativas frustradas, optei pela ausência do relato descritivo e linear, em prol de uma brevíssima tradução contaminada pelas leituras do filósofo francês Georges Battaille (1897 – 1962) enquanto estratégia de criar efeitos de sentido semelhantes a configuração cênica assistida.

Prossigo a escrita ao sentir a necessidade de falar do ser enquanto descontinuidade, para evidenciar que há um abismo entre um ser e todos os outros: marco da solidão perante o mundo. O abismo é nomeado de descontinuidade onde não há igualdade e homogeneidade entre os seres, já que se nasce e morre isoladamente, as experiências são vividas individualmente. Em sua incompletude, o ser procura, em vão, se completar na e pela experiência da comunicação com a incompletude do outro. Entretanto, estas relações são marcadas pela angustia de lidar com a diferença do outro, e o sentido se dá pelo desafio que a comunicação representa e não pela “certeza” de uma homogeneidade.

É sob esta perspectiva que percebo um imbricamento de melancolia e visceralidade na performance de Alejandro Ahmed enquanto enunciação do vazio, da perene falta, que constitui o sujeito. Há uma opção estética pelo fluxo inestancável de ações que borram o contorno tanto do próprio corpo quanto de sua extensão (o cabo amarelo ligado num microfone) para materializar sua vontade pelo desaparecimento. Aniquilar a si mesmo para emergir o devir do ser e de suas relações transitórias que desapropriam os ideais de uma identidade fixa. Assim, Ahmed se inventa e reinventa e se configura enquanto um “por vir a ser” uma descontinuidade cada vez mais potente, imprevisível e inapreensível.