Duchamp soube viver: Bispo morrer – Parte 1 | FERNANDO BOPPRÉ

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Nossa vida é um negócio; outrora era uma existência”.
(Jacob Burckhardt, Cartas)

 

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Arthur Bispo do Rosário                            Marcel Duchamp

Em primeiro lugar, cabe dizer que colocar, lado a lado, Arthur Bispo do Rosário e Marcel Duchamp não é um procedimento original. Diversos outros estudos, críticas e mesmo curadorias já o fizeram. Menos mal, assim, imerso em suas trajetórias e no universo de cada um deles, sinto-me a vontade para esboçar uma errância a partir de sutis coincidências e dissonâncias.

Conversar com os mortos não é nada fácil. Aliás, beira ao impossível (as religiões estão aí para atestar isso). Justo o que proponho neste momento: dialogar com mortos. Marcel Duchamp e Arthur Bispo do Rosário. Sorte a minha: falar com estes artistas (e não outros) que deixaram pensamentos significativos em suas obras. Por sinal, o fazer da arte bem poderia ser compreendido como uma espécie de labor espiritual que rompe o aspecto inexorável da morte (o silêncio da ausência de um corpo). Se não é possível vencê-la, produz-se uma série de testemunhos sobre o viver (e o morrer) em forma de imagens, textos, sons, utilizando-se da matéria, do intelecto, seja o que for. Isso ficará em meu lugar quando eu for morte e silêncio. Evidentemente, há um flerte com a eternidade em cada obra de arte, em cada página escrita.

A fala2 que proponho neste momento instaura uma relação horizontal entre universos artísticos absolutamente distintos. Ou seja, a hipótese que apresento é que existem diferenças entre dois modos de sentir e representar o mundo e que elas resultaram em duas poéticas singulares e não convergentes. Tanto Bispo quanto Duchamp dedicaram-se às imagens e à escrita, cada qual a seu modo. Por isso, faz-se necessário analisar as práticas exercidas por cada um. Guardo-me no silêncio inspirado em Duchamp e em Bispo. Aquele, durante anos, preferiu jogar xadrez a falar com críticos de arte; este isolou-se do ruído mundano num hospício da periferia do Rio de Janeiro.

Com esta breve fala não desejo ativar a lógica de funcionamento da história da arte, da crítica ou mesmo das curadorias já que, ordinariamente, o objetivo desses campos de saber (e poder) é consagrar artistas e instituições. Aqui, não se utiliza de uma hermenêutica capaz de apontar coerências em determinados eixos tais como históricos, estilísticos, biográficos, poéticos, regionais, seja o que for. O que digo é o testemunho de uma convivência prolongada com as imagens reproduzidas fotograficamente em livros, on-line e catálogos de arte. Apenas uma vez tive a chance de ver aos originais dos trabalhos que serão citados logo a frente.

Definitivamente, não interessam aqui os discursos grandiloquentes, tais quais: “Bispo, o grande artista da contemporaneidade brasileira”, “Duchamp, o paradigma de pensamento para a arte do século XX”. Se há o procedimento curatorial aqui é pelo simples gesto de situar, lado a lado, Bispo e Duchamp. Se a história da arte se faz presente deve-se somente às informações por ela legadas. Se há crítica de arte nestes apontamentos, ela comparece de soslaio para questionar o atual entendimento e deificação que se faz em torno da figura de ambos. O que faço é ensaio, com todos os riscos e maravilhas que o gênero inspira. E no que concerne à compreensão do incrível universo construído por Arthur Bispo do Rosário, confesso que fracassei. Ao final, demonstrarei os motivos pelos quais considero que este texto é o relato de um fracasso.

Antes de qualquer coisa, irei descrever, brevemente, a trajetória de ambos já que, em boa medida, são nomes reconhecidos da história da arte – ainda que por motivos diversos. Caso alguém não os conheça, criaremos um campo comum de entendimento e diálogo. Vamos por ordem alfabética.

Notas biográficas

Arthur Bispo do Rosário.Nascido na cidade de Japaratupa, em Sergipe, no ano de 1909 ou 1911 e morto em 1989. A vida errante4: de marinheiro a faxineiro, de imigrante a interno de um manicômio, de religioso a artista consagrado. Foi diagnosticado com esquizofrenia paranóide em 1938, no então Hospital para Alienados, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Passou por algumas instituições de atenção à saúde mental até ser internado (ou “auto-internar-se”) definitivamente na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, onde restou até o fim da vida. Por décadas, a produzir aquilo que alguns consideram, hoje, um dos maiores monumentos da contemporânea arte brasileira e mesmo internacional.

O processo de reconhecimento no interior do circuito artístico teve início na década de 1980, quando o “Bispo do 10”5 tornou-se o artista Arthur Bispo do Rosário. Para tanto, foram necessárias uma série de apropriações. Após a morte, suas obras já participaram de mais de trinta exposições individuais e coletivas em museus e galerias nacionais e internacionais. Em 1982, uma curadoria de uma exposição coletiva realizada por Frederico Morais no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro intitulada “À margem da vida”. Na ocasião, Bispo resistiu em ceder trabalhos para serem transportados até o MAM-RJ. Mais a frente, a criação do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea (no interior da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá). A mais recente enxurrada de mostras com obras de Bispo ocorreu em 2011, no Museu Art & Marge em Bruxelas na Bélgica, no Instituto Valenciano de Arte na Espanha e na 11ª edição da Bienal de Lyon. Em 2012, está previsto que ele será um dos destaques da 30ª Bienal de São Paulo, com curadoria do venezuelano Luis Pérez-Oramas.

Nascido em 28 de julho de 1887 na Alta Normandia francesa. Saído de uma família de seis filhos, dentre eles o escultor Raymond Duchamp-Villon e os pintores Jacques Villon e Suzanne Duchamp. O artista que se dedicou a questionar a própria arte. Para tanto, foi preciso passar por Fernand Léger e Robert Delaunay, por Albert Gleizes e Jean Metzinger. Do cubismo ao futurismo (com o “Nu descendo uma escada nº 2”, 1912-1914, atualmente parte do acervo do Museu de Arte da Filadélfia), do surrealismo ao dadaísmo (com Miles of String, instalação/intervenção que realizou durante a Exposição Primeiros Documentos do Surrealismo, em 1942). Depois, afastou-se da pintura, de Paris e chegou a se dedicar ao cinema. Estabeleceu-se em Nova Iorque, fez amizade com Man Ray, Alfred Stieglitz e Francis Picabia, jogou inúmeras partidas de xadrez, passou por Buenos Aires, apaixonou-se por Maria Martins, pela escrita. Este foi, em parte, Duchamp.

 

De uma analogia equivocada

 

Não partirei da falsa conclusão que relaciona, necessariamente, Duchamp e Bispo. É que muitos estudiosos têm enlaçado, ultimamente, obras que se parecem ao olhar. Por exemplo, a “Roda de Bicicleta” que Duchamp instalou pela primeira vez no ano de 1913 em seu próprio ateliê e a “Roda da Fortuna”, fatura de Bispo atualmente pertencente ao Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea. O acaso meramente formal que reúne essas obras tem provocado inúmeros equívocos. A única coisa a ligá-las é uma analogia visual e formal, uma coincidência da forma figurada. Os demais procedimentos, os sentidos poéticos (ou meta-poéticos, no caso de Duchamp) que cada artista imprimiu são absolutamente dissonantes. Um era motivado pela fé (Bispo), outro pela cultura (Duchamp). No entanto, estudiosos têm comparado Bispo ao artista francês em função desta semelhança.

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Bispo do Rosário: Roda da Fortuna                    Duchamp: Roda de Bicicleta

Por exemplo, os ready-mades. O ato duchampiano de selecionar ao acaso mercadorias anônimas em circulação nas sociedades capitalistas é a base para a compreensão do efeito devastador causado na história da arte. Ele convertia mercadorias em obra de arte, feito mágico – e todo mágico tem um quê de farsante. A maior prova dessa brusca inversão encontra(va)-se na reação do público (que ainda hoje persiste) em se perguntar: “Mas isso é arte?!? Para mim, isso é uma mercadoria que até eu posso comprar ou fazer com minhas próprias mãos!”.

“O grande problema era o ato de escolher. Tinha que eleger um objeto sem que este me impressionasse e sem a menor intervenção, dentro do possível, de qualquer idéia ou propósito de deleite estético. Era necessário reduzir meu gosto pessoal a zero. É dificílimo escolher um objeto que não nos interesse absolutamente, e não só no dia em que o elegemos mas para sempre e que, por fim, não tenha a possibilidade de tornar-se algo belo, agradável ou feio.” (Duchamp, Paz, 2008, p. 29)

Esse ato – e nem tanto a obra propriamente dita, por isso ele buscava objetivos desprovidos de maiores significados – é o que dissolve a noção de obra e, por consequência, de autor. Com Bispo, o procedimento era o oposto. Havia imposto a si próprio a missão de reordenar os objetos que lhe chegavam às mãos criando assim uma grande história dos homens. Esse emaranhado de narrativas seria apresentado ao Além no momento do Juízo Final. Para tanto, Bispo retirava objetos de circulação e os consagrava num conjunto de celas do Pavilhão 10 da Colônia Juliano Moreira. Ali deveriam ficar até o dia de sua própria morte e/ou do Juízo Final. Evidentemente, ele os consagrava ao Além (e não à arte). E não era um ato ocasional, mas sim uma ação motivada pela extrema miséria do cárcere manicomial que fazia com que Bispo escolhesse os objetos que lhe passassem pelas mãos. Assim, tornava-os peças de uma grande engrenagem narrativa.

Duchamp cansou-se de narrar; Bispo jamais abandonou o Verbo. Vertia objetivos em “Obras”, dotava-lhes de rito. Bispo era muito mais propriamente um obreiro do que um artista já que direcionava o fruto de seu esforço/sacrifício para o Deus com “D” maiúsculo – esse Deus cristão que costuma alternar drasticamente os humores e distribuir culpas aos homens. Bispo nunca desejou expor suas Obras num museu, porém certamente sonhou em rezar missas. Na verdade, Bispo não cabe num museu e, mesmo se cabesse, sinceramente, nem sei se os museus teriam os conhecimentos necessários para entendê-lo.

carro-bispoBispo do Rosário: Carro

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1 Fernando Boppré é mestre em História Cultural pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenador do Programa de Ação Cultural e Exposições do Museu Victor Meirelles, do Instituto Brasileiro de Museus, do Ministério da Cultura. Também realiza curadorias independentes e desde 2006 mantém o blog “Arte por extenso” (www.fernandoboppre.net/blog). E-mail: fernando.boppre@gmail.com

2 O presente texto foi apresentado em uma manhã do dia 28 de setembro de 2011, durante o “IV Colóquio: História e Arte – Imagem e Memória”, na Universidade Federal de Santa Catarina. Optou-se por manter o tom coloquial.

3 Não é possível afirmar, com precisão, a data de nascimento do artista, conforme assinalaram as duas biografias sobre o artista até agora publicadas (HIDALGO, 1996) (BURROWES, 1999).

4 O errante não é aquele que se equivoca, mas sim quem erra com gosto ou pelo destino.

5 Em visita realizada na Colônia Juliano Moreira, em 2008, encontrei Raimundo Camillo. Ele também se dedica a criar imagens com a simplicidade dos papéis e canetas que lhe permite a miséria material da Colônia. Perguntei a ele, que conhecera Bispo, como era seu colega. Ele respondeu: “O Bispo do 10 era preto”, em alusão à cor da pele e ao número do pavilhão que Bispo residia.

6 Em verdade, os trabalhos do Bispo não possuíam título e este é um dado importante. Segundo Paulo Herkenhoff (in: Lázaro, 2008, p. 159): “Paradoxalmente, os objetos de Bispo do Rosário não tinha título, apesar de sua precisão, de seus fichários de gente, de seus arquivos e do ordenamento de coisas acumuladas em vitrines”.

7 Por sinal, todas as obras produzidas por Bispo encontram-se no Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, localizado em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Um verdadeiro tesouro brasileiro.

8 Confesso que ainda não me dediquei a investigar a presença das religiões africanas no espírito e nas Obras de Bispo do Rosário, mas tudo indica uma contiguidade.