Cromomuseu e a Política de Acervo. Entrevista com Gaudêncio Fidelis ‌| FERNANDO BOPPRÉ

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O Museu de Arte do Rio Grande do Sul abriu recentemente a exposição Cromomuseu, com a curadoria assinada pelo diretor do museu Gaudêncio Fidelis. Nesta entrevista o diretor fala sobre a política de acervo dos museus brasileiros e sua experiência como curador.

 

FB: O seu trabalho é o de revirar arquivos/acervos e apresentá-los ao público por meio de exposições, publicações e outras plataformas de comunicação. Com isso, você valoriza o que já é patrimônio público e constrói modelos temporais alternativos para a história da arte. Para você poder fazer isso, é preciso que existam acervos estruturados, catalogados e com possibilidades de escolha. Nesses termos, qual a importância dos acervos para os museus? Pergunto isso no contexto brasileiro tendo em vista a quase inexistência de políticas de acervos.

GF: Acervos são a própria razão de ser dos museus. Preservar e exibir seus acervos faz parte da missão de todas as instituições museológicas ao redor do mundo. Por alguma razão, muitos dos diretores de museus brasileiros, especialmente, perderam essa perspectiva de vista e tais instituições foram transformadas em espaços de exposições temporárias, mais próximo muitas vezes de galerias de arte. Retomar o sentido de colecionar, conservar e exibir acervos de forma adequada e criteriosa é a principal tarefa que precisamos empreender dentro dos museus brasileiros. Os diretores das instituições que se esqueceram dessa missão precisam de imediato de lembrar-se dela e colocá-la em prática.

FB: CROMOMUSEU é uma sacudidela no modo como se entende a utilização do espaço (cênico-)expográfico. É um susto colorido. Você fez adentrar o universo da cultura no interior do museu, com uma palheta de cores multivariada, onde os trabalhos artísticos são apoiados sobre ela para serem exibidos ao público. Donde veio essa ideia?

GF: Cromomuseu partiu do princípio de que museus precisam fazer exposições críticas acerca do aparato museológico e todos os mecanismos que agem sobre a obra de arte. Se fizermos isso estaremos contribuindo para que tenhamos exposições naturalmente mais criativas e interessantes para o público. É preciso dizer também que não vejo mais sentido em realizar exposições que não tomem uma postura crítica em relação ao contexto de produção e circulação da obra de arte. A cor neste caso foi introduzida para funcionar como um mecanismo de perturbação do espaço museológico, conduzindo a um deslocamento da leitura das obras para um lugar de instabilidade, onde as ideias preconcebidas sobre esta ou aquela obra devem que ser abandonadas e posteriormente reconstruídas pelo visitante, agora dentro de um novo contexto.

FB: É evidente que CROMOMUSEU nos faz pensar nos limites da curadoria. Até onde as proposições do curador (como a sua ideia de se pintar de modo absolutamente heterodoxo as paredes expositivas) podem ir sem prejudicar o discurso e a forma existentes em cada trabalho artístico? Eu sempre prefiro pensar que a cada peça do acervo há um universo. E gosto de mergulhar nesse micro-universo em busca de sentidos (ou não-sentidos). Parece-me que com CROMOMUSEU você fez o oposto: em cada universo existem peças diversas que se encaixam nele. E é preciso mostrar esse universo primeiro tanto que a primeira impressão do visitante não é exatamente sobre uma obra, mas sim sobre a exposição como um todo: o choque da cor (que é o efeito produzido pelo curador e não pelos artistas). Como você lida com essa questão?

GF: Talvez esta discussão seja um tanto quanto ultrapassada visto que ela subestima o potencial de uma obra de arte de ultrapassar os limites do contexto onde é exibida. Em outras palavras, manter-se integra em sua essência. Sim, é verdade que um fundo branco, portanto neutro, propicia estabilidade e portanto é exigido da obra e do expectador o mínimo possível. Se por um lado a obra revela seu potencial significativo, por outro o expectador também extrai dela mais do que talvez ela possa fornecer a uma primeira vista. Exposições são em última instância eventos sobre o conjunto e não sobre obras individuais, embora muitos curadores queiram nos fazer crer que é o contrário. Sendo assim, uma obra interfere na percepção da outra, assim como o todo modifica parcialmente nossa percepção da obra, que muitas vezes é confundido com uma interferência sobre a obra. Não haveria sentido em realizarmos exposições se não fosse para “testar” o potencial conceitual de uma obra e os limites de seu significado. Estas exposições que temos realizado no MARGS só são possíveis porque hoje o espectador está preparado intelectualmente para vê-las. De outra forma elas não seriam inteligíveis. A prova de que elas são exposições de seu tempo é que nós as olhamos e entendemos o contexto dentro do qual tais exposições existem, mesmo que eventualmente tenhamos críticas sobre elas.

FB: Toda a sua trajetória, parece-me, está fundada na ideia de re-fundar. Há um esforço institucional de se construir espaços de referência para as artes visuais em sua terra natal, o Rio Grande do Sul. No caso do MARGS, percebo um esforço de re-construção, após anos de marasmo. Como tem sido esse trabalho?

GF: A recuperação de um museu que tenha sofrido negligência ou descaso é sempre lenta e penosa. No caso do MARGS buscamos o reestabelecimento de uma rotina museológica, depois de anos sem um programa de exposições que oferecesse o mínimo de uma produção realizada pelo próprio museu. O museu que não produz suas próprias exposições e programas não pode ser considerado uma instituição museológica, apenas um receptáculo de outras instituições.

FB: Em sua vinda para Florianópolis no início do ano, percebi um esforço muito grande na visitação de ateliês de artistas, um olhar atento àquilo que está acontecendo com o objetivo de fortalecer o acervo do MARGS. Como se dá esse seu trabalho?

GF: Sempre tive interesse em me manter atualizado sobre o que vem sendo produzido e também em conversar com os artistas, em saber sempre um pouco mais sobre suas ideias. É a partir deste contato que novas ideias surgem. Só o contato direto com a obra e o processo dos artistas é que possibilita o surgimento de ideias originais para a realização de exposições inovadoras. Quando se trata de acervos é preciso não só conhecer as obras individualmente, mas a coleção como um todo, pois a história de sua formação, o sentido de conjunto, é o que é capaz de demonstrar sua riqueza e seu potencial para a realização de exposições. Mas é a partir deste contato profundo, verificando inclusive suas lacunas, que podemos vislumbrar a continuidade de um acervo e seu crescimento. No caso do acervo do MARGS temos feito um esforço enorme para que este represente o Brasil como um todo, além de abrir algumas oportunidades para termos obras de artistas estrangeiros.

 

Leia também o texto “O Fim do Cubo Branco e o Surgimento da Cromoexperiência”, de Gaudêncio Fidelis: http://interartive.org/2012/12/cromoexperiencia/

 

Websites:

http://www.margs.rs.gov.br/

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