À deriva. Fotografias de Lela Martorano | LUCILA VILELA

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Lela Martorano. Mar de dentro, 2012

“A objetiva é um instrumento como o lápis ou o pincel; a fotografia é um procedimento como o desenho e a gravura porque o que faz o artista é o sentimento e não o procedimento.”

Louis Figuier, La Photographie au Salon de 1859

Uma fatia de tempo é encontrada por Lela Martorano nos arquivos fotográficos de sua família. A artista descobre, no olhar do pai, imagens que captaram a luz de um instante. Na memória, algumas cenas na praia lembram os élans de uma temporada. E era através do olhar, ainda que distante,  que seu pai participava das cenas. Olavo Vieira fotografava em slides numa época em que poucos encaravam o universo fotográfico. Longe das facilidades da tecnologia digital, a fotografia analógica exigia dedicação; era preciso confiança para apertar o botão de disparo, uma vez que o filme tinha suas poses contadas. Hoje a relação com a fotografia foi transformada pela comodidade do “delete”. A memória digital tornou-se um hábito que muitas vezes anula a própria vivencia, refém de um gesto viciado. Observa Vilém Flusser que muitas pessoas não sabem mais olhar a não ser através do aparelho.[1] Diante da capacidade sedutora de captar o instante sem pensar na composição da imagem, faz-se necessário enxergar as armadilhas da câmera digital no uso do cotidiano. Flusser adverte que “o aparelho propõe um jogo estruturalmente complexo, mas funcionalmente simples. É fácil aprender suas regras, difícil é jogá-lo bem.”[2] Saber fotografar consiste em evitar o gesto automático e impaciente do impulso amador. Lela Martorano utiliza a tecnologia digital com um pensamento analógico. Consciente dos riscos da linguagem, se apropria dos slides do pai e elabora um jogo de imagens compondo uma nova fotografia.

No processo, projeta os slides marcados pelo tempo sobre muros desgastados e antigos cartões postais, estabelecendo uma nova imagem a partir dessa fusão. A exposição Mar de Dentro apresenta algumas obras criadas em uma residência feita no Museu de Arte Moderna da ilha de Chiloé (Chile, 2011). Lela Martorano resgata a memória da cidade e interfere com sua memória pessoal, procedimento que já havia utilizado na exposição Deslumbramentos na cidade de Granada (Espanha, 2009). “As fotos transformam o passado no objeto de um olhar afetuoso“[3], observa Susan Sontag. A intimidade de um momento em família é somada ao afeto com a cidade. Assim, a projeção do tempo incide sobre o espaço. Sontag ainda percebe que “por meio de fotos, cada família constrói uma crônica visual de si mesma- um conjunto portátil de imagens que dá testemunho da sua coesão”. As fotografias que escolhe no entanto, não são retratos senão cenas descontraídas que revelam a espontaneidade do momento. A presença do mar reforça a intensidade da imagem. Para Gaston Bachelard, a água é um elemento transitório, corre sempre, cai sempre; “anônima sabe todos os segredos. A mesma lembrança sai de todas as fontes.” Há profundidade em cada gota, basta lembrar a densidade do aplastamiento de las gotas, de Julio Cortazar. Em Castro (Chiloé) existe o mar interior que deu o titulo da exposição. Parece então que esse interior das águas traz a sensação de um tempo vivido. Na dimensão nostálgica de uma gota, as imagens carregam lembranças passageiras.

No caso dos vídeo-objetos também apresentados nesta exposição, um conjunto de imagens fixas é iluminado por uma única imagem em movimento. O que se move é o mar sobre as crianças que outrora brincavam na praia. O reflexo da luz na água possibilita a percepção do movimento. O vídeo funciona como uma imagem de fundo que banha a cena estática; uma película que envolve a paisagem fotográfica. A claridade da água permite a travessia do olhar. Assim a memória da infância torna-se ainda mais distante, como se tivesse um filtro entre o olhar e a fotografia. Em Mar de Dentro, Lela Martorano trata água feito luz e vice-versa. Sejam projetadas ou no vídeo, a fluidez e a transparência das imagens interferem nas fotografias com suaves vibrações; captam o tempo, efêmero, entre a luminosidade das águas e as paisagens de luz. A palavra fotografia deriva do grego: φωτογραφία a partir de φως (fos) + γραφή (grafí), ou seja, escritura de luz. Lela Martorano desenha na luz as transparências do tempo. Christine Buci-Glucksmann nota que o efêmero parece surgir em todas as diferenças, brilhos, reflexos e cintilações do visível, como o lado escondido de uma luz imanente.[4] Assim, o efêmero se desenvolve entre a presença e a ausência.

Desta maneira, a escolha do pôster lambe-lambe para apresentar as fotografias demarca também o caráter efêmero. O termo lambe-lambe, além de referir-se à pequena caixa preta usada pelos fotógrafos no inicio do século XX, é também um pôster de papel – wheat-paste– colado diretamente em muros e postes de rua, usado em geral para fins publicitários. Ao optar por esse suporte, a artista desloca a estética urbana para dentro do espaço expositivo. As fotografias se desfazem devido à fragilidade do papel empregado. Dentro da galeria, o papel é protegido das intempéries, mas não deixa de apresentar seu aspecto quebradiço, desaparecendo em um tempo mais lento. Em outros momentos, porém, a artista também leva o trabalho às ruas, confundindo-o entre os cartazes publicitários. Existe um constante movimento de deslocamentos, que transforma cada etapa do processo criativo. Um trabalho de pós-produção em que a artista se apropria de uma imagem já produzida para realizar outra. A foto do arquivo aparece no muro, migra para outra fotografia e volta para outro muro. Os desvios da cena e deslocamentos de suporte estabelecem um incessante fluxo de memórias. Nesse mar de dentro, as águas evocam imagens longínquas de um tempo suspenso. Percebe Heráclito, “é morte, para as almas, o tornar-se água.”[5] Nas imagens de Lela Martorano, as lembranças são resgatadas nas sutilezas de um olhar afetuoso e se desfazem lentamente à deriva de um tempo reencontrado.

Exposição Mar de Dentro, de Lela Martorano

Fundação Cultural Badesc
Rua Visconde de Ouro Preto, 216 – Centro – Florianópolis/SC
Brasil

Visitação: 25/05 à  22/06
2012

 


[1] Cfr. FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002, p. 54

[2] Ibid.

[3] SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p.86

[4] BUCI-GLUCKSMANN, Christine. Estética de lo efímero. Madrid: Arena Libros, 2006, p. 31

[5] BACHELARD, Gaston. A Água e os Sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p.59