Vagabundo, profanador | ARTUR DE VARGAS GIORGI

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Luzes da cidade (City Lights), de 1931, é um dos filmes mais celebrados de Charles Chaplin, lembrado com frequência por ter sido realizado como filme mudo (em pantomima) quando o cinema falado já tinha se estabelecido, e isso apesar de Chaplin ter optado pela sincronização da trilha (que também foi composta por ele) e pela inclusão de alguns efeitos sonoros, como o que vemos logo no início, durante a inauguração do monumento: este efeito, aliás, uma sátira do próprio ato de fala, que no caso ganha força por se tratar especificamente da fala daqueles que se dirigem ao povo – ou que, no limite, pretendem não só falar para ele mas por ele.

“Paz e Prosperidade” é o nome do monumento que é oferecido à cidade, surgindo no momento em que o pano é erguido. No mesmo momento em que, junto às suas três figuras, um quarto corpo – estranho, escuro, um intruso – aparece também: um vagabundo que dorme no colo da estátua da mulher (e essa forma é a mais alta, está sentada com o tronco ereto, enquanto o vagabundo está deitado). Ele se coça, estica a perna, leva um tempo até perceber que não é aceito onde está. E o que se segue é uma série de ações desajeitadas que prolongam e acentuam o deslocamento do vagabundo em relação à solenidade: durante o hino, um buraco no traseiro das suas calças o mantém suspenso, e depois escapando da espada que estava ali atravessada, ele se senta na cara da estátua masculina, pisa entre as suas pernas e se dirige à terceira figura, usando-a então como bem entende, desrespeitosamente, poderia ser dito, fazendo graça. A multidão parece rir, mas as autoridades o enxotam. E ele sai de cena como alguém que escapa, pulando a grade.

A solenidade de inauguração do monumento também poderia ser chamada de consagração: uma cerimônia, ou melhor, uma liturgia religiosa em que algo é retirado para o campo do sagrado e ali deve permanecer, distante do alcance comum, do mundo profano. “Pode-se definir como religião aquilo que subtrai coisas, lugares, animais ou pessoas ao uso comum e as transfere para uma esfera separada”, nos lembra Giorgio Agamben em Elogio da Profanação: “Não só não há religião sem separação, como toda separação contém ou conserva em si um núcleo genuinamente religioso” (2007, p. 65). Em Luzes da cidade, afinal, o monumento é oferecido ao povo, mas paradoxalmente ninguém poderá fazer com ele o que quiser, individual ou coletivamente; em outras palavras, ninguém pode tocar na paz e na prosperidade, muito menos abrigar-se em seu colo; o povo apenas pode contemplar as figuras à distância, respeitosamente. E o autor de Estado de exceção segue, indicando, ao que parece, uma possibilidade de leitura do comportamento do vagabundo:

“O termo religio, segundo uma etimologia ao mesmo tempo insípida e inexata, não deriva de religare (o que liga e une o humano e o divino), mas de relegere, que indica a atitude de escrúpulo e de atenção que deve caracterizar as relações com os deuses, a inquieta hesitação (o “reler”) perante as formas – e as fórmulas – que se devem observar a fim de respeitar a separação entre o sagrado e o profano. Religio não é o que une homens e deuses, mas aquilo que cuida para que se mantenham distintos. Por isso, à religião não se opõem a incredulidade e a indiferença com relação ao divino, mas a “negligência”, uma atitude livre e “distraída” – ou seja, desvinculada da religio das normas – diante das coisas e do seu uso, diante das formas de separação e do seu significado. Profanar significa abrir a possibilidade de uma forma especial de negligência, que ignora a separação, ou melhor, faz dela um uso particular “(2007, p. 66).

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Em A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, texto de 1935/36 em que o cinema de Chaplin é citado mais de uma vez, diz Walter Benjamin a respeito das formas de recepção relacionadas à arquitetura, destacando como o recolhimento (a postura contemplativa, respeitosa) se distancia do hábito (o uso, o toque):

“Os edifícios comportam uma dupla forma de recepção: pelo uso e pela percepção. Em outras palavras: por meios táteis e óticos. Não podemos compreender a especificidade dessa recepção se a imaginarmos segundo o modelo do recolhimento, atitude habitual do viajante diante de edifícios célebres. Pois não existe nada na recepção tátil que corresponda ao que a contemplação representa na recepção ótica. A recepção tátil se efetua menos pela atenção que pelo hábito. No que diz respeito à arquitetura, o hábito determina em grande medida a própria recepção ótica. Também ela, de início, se realiza mais sob a forma de uma observação casual que de uma atenção concentrada” (1994, p. 193).

Tão logo integrado ao conjunto da arquitetura urbana, o monumento “Paz e Prosperidade” é usado de uma maneira muito particular pelo vagabundo. Seu hábito indolente permite que ele intervenha nas figuras de forma inusitada (intervenção que se dá não apenas sobre as formas, mas evidentemente se desloca sobre o significado delas: é preciso ler a sequência de ações do vagabundo em relação com a paz e a prosperidade prometidas), com o que é negligenciado o aspecto sagrado atribuído pela cerimônia (“sagrado” ou “artístico”, no sentido da obra que é reconhecida, recolhida e conservada disponível apenas para a admiração distanciada – “proibido tocar” –, como em um museu).

Ainda em seu texto sobre a obra de arte, Benjamin comenta sobre outra noção retomada por Agamben, a distração. Para Benjamin, a distração corresponde, por assim dizer, a uma espécie de liberação sensorial que não deve ser dissociada do seu aspecto político, já que é uma variedade de comportamento social, contrária assim ao recolhimento (antissocial) burguês; é um comportamento que indica a adaptação dos sentidos diante dos constantes estímulos da modernidade (um preparo do nosso aparelho perceptivo para o desempenho de novas tarefas, lidando com novas técnicas) e um relaxamento na observância da “religio das normas” da tradição:

“A recepção através da distração, que se observa crescentemente em todos os domínios da arte e constitui o sintoma de transformações profundas nas estruturas perceptivas, tem no cinema o seu cenário privilegiado. E aqui, onde a coletividade procura a distração, não falta de modo algum a dominante tátil, que rege a reestruturação do sistema perceptivo. É na arquitetura que ela está em seu elemento, de forma mais originária. Mas nada revela mais claramente as violentas tensões do nosso tempo que o fato de que essa dominante tátil prevalece no próprio universo da ótica. É justamente o que acontece no cinema, através do efeito de choque de suas sequências de imagens. O cinema se revela assim, também desse ponto de vista, o objeto atualmente mais importante daquela ciência da percepção que os gregos chamavam de estética” (BENJAMIN, 1994, p. 194).

Chaplin redunda a distração que os espectadores procuram nos cinemas ao apresentar em seu cinema o vagabundo distraído. E talvez também nesse sentido se entenda a simpatia, a identificação movida pelo personagem. Profanar é tocar, deslocar, fazer graça; é, como em Luzes da cidade, deitar-se e descansar sobre aquilo que – oferecido – foi separado. Tal é o pensamento de uma estética que não se refere a um espaço autônomo do fazer humano (uma área cercada, policiada, com regras de conduta e mestres de cerimônia específicos), ou seja, trata-se de uma estética livre e negligente que cria contatos sempre imprevistos com o que se quer intocável.

 

Referências:

AGAMBEN, Giorgio. Elogio da profanação. In: __________. Profanações. Tradução: Selvino José Assmann. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 65-79.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica [primeira versão]. In: _________. Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura (Obras escolhidas v. 1). 7 ed. Tradução: Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 165-196.