“We are Motörhead and we play rock ‘n’ roll” | BENTO ARAÚJO

São Paulo, 16 de abril de 2011

Quando Ian “Lemmy” Kilmister sobe ao palco e profere a frase “We are Motörhead and we play rock ‘n’ roll” em seu tradicional microfone inclinado de cima para baixo, milhares de fãs vão ao delírio completo. É hora do melhor show de rock do mundo começar, é Lemmy e seus comparsas em ação, dessa vez comemorando os 35 anos “da pior e mais barulhenta banda do mundo”.

E bota barulho nisso. Durante toda a sua carreira com o Motörhead, Lemmy sempre fez questão de afirmar que a música que pratica é apenas rock ‘n’ roll – nada mais, nada menos. O coração dessa selvageria toda é o protótipo do estilo em pessoa – com seu distorcido baixo Rickenbacker plugado em poderosos amplificadores de guitarra e sua voz tratada com muito whisky e três maços de cigarros por dia. Já as anfetaminas parecem ter ficado no passado…

Musicalmente o Motörhead – Lemmy, Phil Campbell (há 27 anos na guitarra) e Mikkey Dee (há 19 anos na bateria) – continua entrosado e letal como sempre. “Iron Fist” foi a primeira, saudada pelos fãs com a devida emoção, já que é tema de abertura também de um tremendo disco homônimo. “Stay Clean”, outro standard do grupo, surge na mesma intensidade e prepara o terreno para “Get Back In Line”, a primeira da noite pinçada do novo trabalho de estúdio do trio, o satisfatório The Wörld Is Yours.

Lemmy anuncia “Metropolis”, hino carrancudo e sinistro do som pesado, para logo depois sacar da manga algo que levou a ala old school da plateia ao delírio: “Over The Top”, o lado B do compacto de “Bomber”, que nunca apareceu em disco de estúdio da banda. Outra ótima surpresa do set list apareceu com o nome de “I Got Mine”, do injustiçado álbum Another Perfect Day, que por ser mais melódico gerou controvérsia entre os fãs em 1983. Lemmy anunciou a música dizendo: “Vamos tocar agora uma antiga canção de 1983, quando a maioria de vocês nem era nascido…”. Num primeiro instante você pode jurar que ele está exagerando, mas basta olhar pro lado para avistar indefesas adolescentes acompanhadas do pai, trajando suas devidas Motör-shirts e curtindo sem parar a festa toda.

“Going To Brazil” é sempre muito apropriada, principalmente por aqui, é claro, e o show segue, com outras do novo álbum e clássicos como “The Chase Is Better Than The Catch” e “Killed By Death”. Quando “Ace Of Spades” surgiu devastadora como sempre nos falantes, todos sabiam que infelizmente o show estava chegando ao fim. O trio deixou então o palco para voltar no bis com “Overkill”, uma pancada tão violenta que, sozinha, em 1979, foi responsável por dar o pontapé inicial no traseiro de gêneros que dominaram o som pesado da década seguinte, como o thrash e o speed metal.

Missão cumprida. Todos devidamente exauridos e com a audição abalada vão deixando a pista da Via Funchal. Virada Cultural? Em nada ela afetou o sucesso da apresentação que contou com casa lotada. Inúmeras passagens pelo País e uma já confirmada escalação para o Rock In Rio, no segundo semestre deste ano, atrapalharam? Nada disso, ver Lemmy ao vivo é sempre uma experiência única – seus fãs somam e prezam shows do Motörhead no currículo como talvez nenhum outro tipo de fã.

E quer saber o que é mais bacana, o Motörhead é a única banda cuja platéia VIP – teoricamente formada por pessoas mais abonadas, respeitosas e educadas – não abre mão do tradicional “mosh”, aquela “dança” visivelmente violenta, mas que é pura diversão e exaltação.

“Only way to feel the noise is when it’s good and loud” já dizia Lemmy e ele tem absoluta razão.

Revista poeira Zine (www.poeirazine.com.br)