Invadir Humboldt | FERNANDO BOPPRÉ

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Carlos Asp + Gerson Reichert: Caixa de ressonância, 2009

Humboldt é uma reconhecida publicação cultural que promove o intercâmbio entre a Alemanha e a América Latina, bem como a Espanha e Portugal. Aborda debates atuais sobre temas da vida cultural e intelectual dos dois lados do Atlântico, por meio de reflexões de autores do mundo ibérico e de língua alemã, bem como de outras vozes internacionais.

Os artistas brasileiros Carlos Asp e Gerson Reichert escolheram as páginas desta revista para executar seus trabalhos. Se, ordinariamente, o desenho ou a pintura adota como ponto de partida o branco virginal tanto do papel quanto da tela preparada, aqui a obra surge apesar da superfície. É como admitir a inviabilidade da tábula rasa, do marco zero. A experiência da impossibilidade do recomeço do nada posto ser a vida uma seqüência descontínua de incisões sobre os corpos: a metáfora da página em branco é arruinada pela imagem da erosão a invadir um rosto outrora límpido. O que nos resta talvez é saber fazer uso disso e daquilo; dos seres, das coisas e da memória do mundo.


Carlos Asp + Gerson Reichert: S/t (Da Série Diálogos Ampliados), 2009

Humboldt o nome do explorador alemão que cá agora é invadido: tornou-se espaço de inserção de traços e dizeres díspares dos subequatorianos Asp e Reichert. De modo geral, revistas são espaços ordenados para discursos sobre o mundo, acompanhados por imagens que reforçam a escrita, utilizadas no sentido estrito da ilustração. Mas é justo o oposto que propõem as intervenções dos artistas: sobre o já dito, o corpo finito da cultura, que decidem investir. Naquilo que a arte gráfica havia resolvido digitalmente (utilizando-se de conceitos implícitos como organização da informação, fluidez do texto, qualidade das imagens), surge a artesania do lápis dermatográfico, a ousadia da tinta a óleo aplicada em uma página de revista.

Carlos Asp e Gerson Reichert coincidem sobre Humboldt. Verbo e sujeitos ambíguos: de uma parte, o duplo incidir pela repercussão dos gestos, a intervenção sobre o impresso pronto e acabado. De outra parte, a marca autoral se duplica e passa a ser exercida em cartografia alheia. Outro momento atesta esse lance: é “Caixa de Ressonância”, de 2009. Ambos invadem superfícies pré-existentes, cada qual a seu modo, posicionando seus trabalhos um sobre o outro, insistindo no ruído.


Carlos Asp + Gerson Reichert: S/t (Da Série Diálogos Ampliados), 2010

Outra coincidência designa o encontro da dupla de artistas sobre as páginas da tradicional Humboldt, no caso específico, do trabalho que realizaram na edição de número 91 intitulada “Uma nova geodésia dos territórios barrocos”. Talvez porque seja o barroco a imagem perfeita para se pensar o trabalho da dupla.

Neste número há um texto assinado por Vittoria Borsó que vem a calhar: “A força crítica do barroco provém do poder subversivo das conexões híbridas. São fricções (tal como o entende Barthes) de idiomas estrangeiros, que interrompem a hegemonia da linguagem do conquistador. A tradição, quer dizer, a transposição da cultura clássica européia para o ‘Novo Mundo’, implica, pois, não somente produção de espaços híbridos, mas também mobilidade da topografia, instabilidade do corpo, transformação da ordem”.

Parece ser isso que Carlos Asp e Gerson Reichert querem dizer: a subversão das páginas de uma revista provinda do “Velho Mundo”, tracejando sobre elas corpos instáveis, desordenando a suposta praticidade do design, velando superfícies grafadas, entregando-nos um território agora híbrido, gestual e colorido, onde o barroco é referência mas também desidentificação – à medida que o texto que agora jaz subterrâneo, já não emite assertivas precisas sobre o barroco ou o mundo.

* fotos: Juliana Lima

website: http://humboldtrevista.blogspot.com/