Quatro linhas, uma lição | VICTOR DA ROSA

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É difícil decidir se Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, é ou não um filme sobre futebol – e isto, de algum modo, parece revelar muito sobre nossas leituras. Pode-se dizer, ainda: é um filme sobre a paternidade – e se lembramos de Central do Brasil, filme anterior de Salles, a afirmativa parece ganhar novos contornos. Desde o título, o futebol é certamente um dos grandes temas, é motivo plástico, sonoro, é força narrativa e é também metáfora. De fato, a impossibilidade de decidir sobre o eixo que move as narrativas de Linha de passe, toda sua instabilidade e a instabilidade que é também a de seus personagens, pode se constituir mesmo como um de seus traços mais conseqüentes.

Por outro lado, em alguma parte de seu recente ensaio sobre o futebol brasileiro, Remédio Veneno, também lançado em 2008, o crítico José Miguel Wisnik escreve que se há um traço que define a singularidade do jogo de futebol, este traço é a contingência. O futebol é um jogo completamente aberto, podemos acrescentar. Em outras palavras – e esta talvez esteja sua diferença radical em relação a outros jogos – o jogo de futebol prevê a imperfeição com intensidade, o vazio é visível: a elipse. Não é inútil lembrar que a ficção do nacional, para Walter Salles e Daniela Thomas, desde Terra estrangeira – por que Portugal, o pai? – também aparece como um campo de problematização.

Deve haver muitas maneiras de aproximar Linha de passe do futebol – e este, embora evidente, ainda me parece um exercício a se fazer. Primeiro, se o filme procede com narrativas que se cruzam – e não se trata de um triângulo amoroso, mas de um quadrado mágico – o jogo de futebol será o maior responsável pela costura. As primeiras cenas do filme são testemunhas admiráveis do modo como o jogo se torna presente entre os personagens: depois de apresentar os quatro irmãos em atividades distintas – e, plasticamente, através da velocidade e do movimento de corpo, são criadas finas relações entre todas as atividades e o futebol, o centro da narrativa – todos são unidos por um pequeno encontro futebolístico no terreno da própria casa, já no final do dia, na primeira cena do filme em que aparecem juntos. Os quatro irmãos não são filhos do mesmo pai, mas todos, em diferentes níveis, jogam futebol.

As passagens entre um lugar discursivo e outro – público e privado, por exemplo, mas também entre lugares profissionais e afetivos, exploradas excessivamente e ao mesmo tempo com muita sutileza (as cenas no posto de gasolina não param de mostrar estas passagens) – também vão encontrar um resumo e uma tensão no jogo de futebol. Linha de passe ou linha de passagem: ou movimentação – a metáfora do título não é aleatória. As primeiras cenas também tematizam estas passagens: a mãe é torcedora fanática do Corinthians, função que é marcada desde o início pela sua participação na torcida organizada, e as primeiras imagens do filme, de fato, são documentos de um jogo que aconteceu entre São Paulo e Corinthians, com a mãe sofrendo na torcida, mas logo o futebol profissional dá lugar a uma partida em que Dario, um de seus filhos, disputa vaga em uma “peneira” para ter acesso ao profissional.

Neste sentido, na última cena de Dario, em que parece realizar o gol em um lance de pênalti, já não é possível separar vida, jogo e narrativa, já que tudo está tão perto, tudo toca – fazer o gol significa um ponto de fuga em sua vida, certamente, uma possibilidade remota de conquista, mas também significa uma poética de finalização da narrativa e, em última instância, um empate contra o time adversário. Neste ponto da narrativa, talvez, o lugar do futebol sofra sua maior curva de indecisão. A relação com a metáfora se perde. Em outras palavras, o que seria exclusivamente do jogo, em um lance, se multiplica de modo indefinido.

O ritmo do filme é inteiro o ritmo de uma partida: cortes acentuados, muitas instabilidades, tensões entre ordem e desordem (que toca algumas vezes no limite da ilegalidade), dribles, pequenas vitórias, crises, fracassos – tudo parece suspenso por mínimas contingências, há uma dificuldade para se apoiar. Os diálogos, por sua vez, são curtos e rápidos, e a narrativa investe em associações quase sempre abertas – um exemplo quase banal, que acaba criando efeito irônico: o pastor aparece no começo do filme dizendo que não vale a pena comprar um sofá, já que tudo pertence a Jesus, e o sofá da casa de Cleuza é muitas vezes motivo de briga entre os filhos; outro exemplo: os ralos das diferentes casas que retornam. Há um caráter fragmentário que predomina, portanto, e dá velocidade a tudo.

Depois, esta aproximação entre futebol e narrativa deve encontrar conseqüências também no modo de filmar. Mais uma vez a velocidade das cenas – que é a velocidade da própria câmera quase sempre na mão – parece ter muito afeto da própria dinâmica do jogo. Em outro sentido, a câmera está sempre a serviço dos personagens, realizando um olhar em primeira pessoa – em uma entrevista sobre o filme, Walter Salles comenta da solução de filmar algumas das cenas no trânsito de São Paulo com uma câmera anexada na própria moto de um dos personagens. Também as cenas dentro do campo são filmadas com uma proximidade e com determinados pontos de vista que apagam qualquer separação entre o espectador e o jogo – e, em última análise, também entre o próprio personagem e o jogo.

Não é em vão, ainda, a opção por um grande número de imagens documentais e, mais do que isto, a opção por uma direção dos “atores” – e muitos nem são atores, propriamente – que vai ao encontro de uma estética de documentário, vamos dizer. Os diálogos entre os motoboys devem evidenciar, com mais clareza, este desejo de encenação, mas durante todo filme é possível perceber um modo de encenar seco, com efeitos de espontaneidade. Tudo isso acaba tornando mais próximas as relações entre os personagens e as várias aparições do jogo, desde as cenas no Morumbi até no campo do Tiradentes. A minha impressão, afinal, é que o futebol está tão próximo dos personagens, tão dentro – e, portanto, tão dentro do filme mesmo – que já não é possível dizer que se trata de um filme sobre o jogo, mas talvez com o jogo. O futebol, por fim, não pode ser somente um tema. É uma lição.